Eu, Leoa: como maternidade e ancestralidade moldaram uma empreendedora
SARAH PRETTO
Eu, leoa, me leio mãe, ao entender todas as versões que me vestem.
“A necessidade coloca a gente num lugar muito desafiador.” Aos 25 anos, Jéssica Francine Cardoso se tornou mãe pela primeira vez: nasceu Lara. Ela, que trabalha desde a adolescência, sempre enfrentou dificuldades para se fixar no mercado de trabalho, sendo uma mulher negra — e esse desafio se agravou quando a maternidade chegou. O aumento no ritmo de trabalho era necessário para sobreviver e criar a filha, mas lhe roubava um direito: maternar.
“Eu passava tantas horas trabalhando que deixava a Lara na creche e, quando chegava em casa, ela já estava dormindo. E, isso foi por muito tempo.”
A mãe de Jéssica, Irene Maria Cardoso, viveu pela maternidade, criando ela e mais sete irmãos. Aos 21 anos, de forma precoce, Jéssica perde a mãe. “Eu sou a continuação de mulheres que não tiveram oportunidades, que não puderam sonhar, mas que deixaram um chão construído para que seguíssemos.”
Aos 30, com o nascimento de Zahara, Jéssica decide mudar. “Quando ela nasceu, num parto domiciliar, eu renasci ali.” Reavaliando sua realidade e preocupada em estar mais presente na vida das filhas, decide colocar em prática sua experiência como intérprete de Libras.
Munida do conhecimento que tinha, e buscando outras mulheres pretas que viviam dilemas sociais semelhantes, Jéssica começa a empreender em plena pandemia. Naquele parto, nasceu também a InterPrêta.
Sou uma imensidão e carrego o futuro pelas mãos.
“Meus pais foram pessoas que não concluíram os estudos, mas sempre disseram que a educação era a ferramenta de mudança.” Abraçando essa oportunidade, Jéssica cursou Serviço Social no ensino superior. Após atuar como assistente social, percebeu que precisava ir além para proporcionar um atendimento verdadeiramente inclusivo. Foi quando decidiu fazer uma segunda graduação: Letras-Libras.
Em 2021, Jéssica deu um passo maior e criou uma startup voltada a oferecer serviços de tradução e interpretação em Libras realizados por mulheres pretas. O negócio começou de forma simples, ainda dentro de casa, mas carregado de propósito. “O empreendedorismo foi esse lugar, a minha ferramenta de mudança.”
No início, percebeu que, mesmo havendo demanda, ela e as outras intérpretes da equipe não tinham equipamentos adequados para trabalhar e se encontravam em meio à pandemia. Assim, Jéssica mobilizou doações de câmeras para que todas pudessem continuar. “Consegui doações e repassei para essas mulheres, para fomentar o trabalho delas também.”
Com a empresa, Jéssica desejava transformar não apenas sua própria realidade, mas a de outras mulheres. “Muitas se encontram num lugar de inércia, não porque não querem avançar, mas porque não têm condições para isso.”
A InterPrêta foi construída a partir das ausências que Jéssica viveu no mercado de trabalho, valorizando a mulher e suas necessidades, unindo autonomia financeira, presença na maternidade e transformação social. “Quando eu era contratada, ninguém queria saber se eu tinha como chegar, se tinha como voltar.”
Apesar de começar em 2021, este é o primeiro ano em que Jéssica consegue viver apenas da empresa. “Empreender é um jogo.” Seu empreendimento se consolidou entregando acessibilidade e reafirmando a presença e a competência de mulheres negras em um mercado em que o corpo sempre é político.
Eu escolho os espaços que me cabem.
“Na escola, meu cabelo começou a me incomodar porque eu queria ser igual às outras meninas.” O pertencimento sempre foi importante na trajetória de Jéssica. Embora se sentisse bem dentro de casa, o lado de fora sempre representou vulnerabilidade.
No início da carreira como intérprete, não foi diferente. Seu corpo e sua aparência se tornam parte do trabalho e, com isso, “as pessoas começam a escolher”. Jéssica já foi dispensada de trabalhos por não atender às “expectativas” dos contratantes. “Aí eu entendi que não era que eles não precisavam mais de mim, mas que não queriam que fosse uma mulher negra.”
Na InterPrêta, Jéssica alinhou empresa, posicionamento e cultura. Nela, as intérpretes usam roupas em cores que contrastam com a pele negra e têm liberdade para usar cortes e penteados. “Os intérpretes sempre estão de preto. Essa foi uma política construída pensando que a área sempre foi ocupada por corpos brancos, e que raramente aceitavam black ou turbante.”
Para compreender sua herança, Jéssica se conecta com sua ancestralidade — um pilar essencial para a empresa e uma bússola em momentos de dúvida, medo e recomeço. “Quando iniciei a InterPrêta, foi porque minha ancestralidade me disse que eu precisava seguir esse caminho.”
Para ela, ancestralidade não é apenas religião: é postura. Está na forma como educa as filhas, como se enxerga no mundo, como honra quem veio antes e como constrói caminhos para quem virá depois. Ela entende que é “uma”, mas também “muitas”: carrega histórias, dores, saberes e resistências de sua linhagem. “A ancestralidade me guia em tudo. Porque a gente não é uma, né? Somos muitas. E essas muitas estão sempre me guiando.”
Eu, leoa — sonhos. Eu, leoa — plurais.
“A InterPrêta está aí para o mundo, mas ela acontece de dentro da minha família, com meu marido e minhas filhas.” Jéssica constrói sua empresa com as raízes que carrega, sustentada pela ancestralidade e pela maternidade, e hoje contribui diretamente com o caminho de mais de 100 mulheres intérpretes. Carrega os ensinamentos dos pais, sua vivência como mãe, e torna a comunicação diariamente mais acessível e inclusiva.
“Eu sou fruto de uma mulher que não pôde sonhar, mas que deixou uma filha com asas.”
Observação: o poema utilizado no texto é da autora Carol Peixoto.









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