Sebos resistem ao avanço tecnológico e mantêm viva a circulação de livros em Florianópolis
Estabelecimentos do centro da capital reinventam seus modelos de negócio para manter fluxo de títulos e leitores
JÚLIA GRABOSKI E SARAH PRETTO
Entre livrarias, bibliotecas e plataformas digitais, os sebos continuam ocupando um espaço singular na vida de muitos leitores de Florianópolis. Mais do que uma alternativa econômica para a compra de livros usados, esses estabelecimentos funcionam como pontos de encontro entre histórias, memórias e diferentes gerações de leitores.
Em uma época marcada pelo crescimento do comércio eletrônico e pela rapidez do consumo digital, os sebos preservam uma experiência que não pode ser reproduzida por algoritmos ou mecanismos de busca: a descoberta casual. Como conta o professor de ciências Lucca Corrêa, que frequenta sebos há cerca de dez anos, “Toda vez que eu passo na frente de um sebo e eu tô com um tempinho livre, eu entro para dar uma olhada. Na maioria das vezes eu nem compro, só vou olhando, é um passatempo que eu gosto muito”. Entre prateleiras repletas de exemplares antigos, títulos esgotados e obras fora de catálogo, leitores encontram livros que muitas vezes não procuravam, mas acabam levando para casa.
Lucca afirma que um dos principais atrativos desses espaços é justamente a possibilidade de localizar obras raras ou de circulação limitada, difíceis de encontrar nos catálogos tradicionais. “Boa parte dos livros que encontro nos sebos são de difícil acesso. Tem livros catarinenses que tiveram tiragens muito pequenas e que lá eu consigo encontrar”, relata.
Além da exclusividade, ele destaca a praticidade de adquirir um livro imediatamente, sem depender dos prazos de entrega das compras feitas pela internet. Para o leitor e dramaturgo Lucas Brisot, frequentador assíduo dos sebos da capital há mais de 12 anos, esses espaços também cumprem uma função importante ao manterem em circulação obras que poderiam desaparecer do mercado editorial.
A escolha pelo balcão também se tornou um ato de consumo consciente. Apesar de reconhecer que os preços nem sempre são muito inferiores aos de plataformas digitais, Lucca afirma que a escolha pelos sebos também representa uma forma de fortalecer espaços independentes. “Porque para mim faz muito mais sentido pagar R$10 a mais para manter aquele lugar de pé, do que pagar mais barato e fortalecer a Amazon, sabe?”
Muitos leitores entram nos estabelecimentos sem uma compra planejada, atraídos pela possibilidade de explorar as prateleiras e encontrar obras que não procuravam inicialmente. Nesse processo de garimpo, dedicatórias, anotações e outros vestígios deixados por antigos proprietários acabam acrescentando novas camadas de significado aos exemplares.
Lucas Brisot relembra um livro encontrado em um sebo que continha, na primeira página, uma dedicatória escrita por uma pessoa que afirmava estar utilizando o primeiro salário para comprar a obra e presenteá-la ao pai, responsável por ensiná-la a ler e escrever. A mensagem, datada em cerca de 1887, chamou sua atenção não apenas pelo conteúdo, mas pelas marcas deixadas ao longo do tempo, como trechos destacados e anotações feitas pelo antigo dono. Para ele, esses registros despertam curiosidade sobre as trajetórias percorridas pelo livro antes de chegar às estantes do sebo e evidenciam como uma mesma obra pode carregar diferentes histórias além daquela contada pelo autor.
Em Florianópolis, os sebos permanecem presentes principalmente na região central da cidade e seguem atraindo públicos variados. Embora enfrentem desafios relacionados às mudanças nos hábitos de consumo e à concorrência das plataformas digitais, esses estabelecimentos continuam desempenhando um papel importante na manutenção da circulação de livros e no acesso a obras que, muitas vezes, já não estão disponíveis no mercado convencional.

Mercado dos sebos
Ao caminhar pelo Calçadão da Rua João Pinto, entre a Praça XV de Novembro e a Avenida Hercílio Luz, é possível encontrar vitrines tomadas por livros antigos, obras esgotadas e títulos raros que já desapareceram das livrarias tradicionais. A região abriga atualmente sete sebos, alguns dos mais antigos da capital catarinense, formando um dos principais polos de livros usados da cidade.
O pioneirismo da área remonta a mais de três décadas, quando a empresária Ivete Berri chegou a Florianópolis. Na época, a cidade não contava com comércios do gênero. Após pesquisar durante dias e não encontrar nenhum estabelecimento do tipo, decidiu abrir aquele que, segundo ela, foi o primeiro da região central da cidade. O Sebos Ivete surgiu em 1992 e permanece em funcionamento até hoje, adaptando-se às transformações do mercado editorial e às mudanças no centro da cidade.
Mais do que espaços de compra e venda, os sebos mantêm uma dinâmica própria de circulação cultural. Diferentemente das livrarias convencionais, os acervos são construídos a partir da troca, revenda e reaproveitamento de exemplares levados pelos próprios leitores. Isso faz com que cada loja tenha coleções únicas e transforme a procura por livros em uma experiência de descoberta.
Essa lógica também estrutura o funcionamento do Sebo Elemental desde 2010. O proprietário, Rodrigo Sarubbi, explica que o estoque depende exclusivamente da clientela. “A gente não tem fornecedor de CNPJs. É uma coisa 100% orgânica”, pontua. Segundo ele, essa dinâmica faz com que o acervo esteja em constante transformação.
A transição do hábito da leitura para trás do balcão é um traço comum entre os livreiros da região. “Eu comecei com a minha coleção pessoal de livros, sempre gostei muito de ler”, conta Rodrigo. Assim como ele, diversos donos de sebos do Centro transformaram o hábito da leitura em fonte de renda e fizeram dos próprios acervos o ponto de partida para os negócios.
No sebo Sabor das Letras, administrado pelas irmãs Magali e Márcia Scheidt há mais de 20 anos, a história do empreendimento começou a partir da coleção da mãe, apaixonada por literatura. Os livros guardados pela família acabaram dando origem ao negócio, mantido até hoje como forma de preservar a memória afetiva ligada à leitura.
Para garantir a sustentabilidade financeira e atrair novos públicos, contudo, foi preciso ir além do papel. No Sebo Elemental, por exemplo, o catálogo expandiu-se para quadrinhos, discos de vinil, CDs, DVDs e itens colecionáveis. Essa variedade de produtos ajuda a criar um ambiente de conversa e convivência, algo cada vez mais raro no comércio moderno.
Para o biblioteconomista Marcelo Cavaglieri, os sebos de Florianópolis oferecem uma experiência sensorial que as livrarias tradicionais perderam. Em artigo publicado, o especialista defende que “é nos sebos que temos realmente o contato mais próximo com as sensações que um livro pode proporcionar, permitindo uma interação e troca de conhecimento com o sebista”.



Desafios do comércio
Em muitos setores do comércio, a concentração de lojas semelhantes em uma mesma região costuma significar concorrência direta, a lógica entre os sebos do Centro funciona de maneira diferente. A proximidade entre as lojas acabou transformando a Rua João Pinto em um ponto de referência para leitores, colecionadores e pesquisadores.
As irmãs Márcia e Magali afirmam que a chegada de novos sebos acabou fortalecendo o movimento da região. “Tinha dois sebos aqui, depois começou a crescer. Mas isso não alterou as nossas vendas. Muito pelo contrário, chamou a população para essa região”, explica Magali.
A dinâmica está ligada às próprias características do mercado de livros usados. Como os acervos são formados a partir da compra, troca e revenda de exemplares levados pelos clientes, dificilmente duas lojas possuem exatamente os mesmos títulos. Dessa forma, leitores em busca de obras específicas costumam circular entre diferentes sebos, o que beneficia o conjunto dos estabelecimentos.
Apesar do fluxo de leitores, manter um sebo no Centro de Florianópolis exige enfrentar mudanças no comportamento dos consumidores e desafios econômicos. Entre os principais obstáculos apontados pelos proprietários estão a redução do movimento após a pandemia, o crescimento das vendas online e os altos custos de aluguel na região central.
Dados da Câmara Brasileira do Livro (CBL) afirmam que 49% dos consumidores preferem adquirir livros de forma on-line. Márcia e Magali sentem isso na prática. Segundo elas, muitos clientes passaram a priorizar compras pela internet nos últimos anos. “Hoje a gente vende pelos dois, tanto presencialmente como também na plataforma”, afirmam. Para elas, a pandemia acelerou a migração de parte do público para o ambiente digital.
Os custos para manter as lojas abertas também representam uma barreira constante. Magali lamenta que “o aluguel em Florianópolis, infelizmente, é muito caro”, o que limita a possibilidade de expansão para áreas mais movimentadas do Centro. Rodrigo, do Sebo Elemental, relata que chegou a considerar a mudança para um ponto com maior circulação de pessoas, mas desistiu após avaliar o aumento das despesas.
As transformações urbanas da região também afetaram o funcionamento dos estabelecimentos. Ricardo Ramos, proprietário do sebo Cia do Saber, relembra que o movimento diminuiu após a saída do antigo terminal urbano de ônibus da região, que contribuía para a circulação de pedestres nas ruas próximas.
Mesmo diante dessas dificuldades, os sebistas afirmam que ainda conseguem garantir sustento financeiro. Magali e Márcia dizem que o negócio “dá para viver”, embora sem grandes lucros. Já Rodrigo Sarubbi afirma que consegue manter uma vida de classe média e pagar as contas com tranquilidade, mesmo reconhecendo que o retorno financeiro é limitado. Ainda assim, ele afirma que permanece no ramo principalmente pela relação construída com os livros ao longo da vida.

Preservação sustentável e cultural
Além do valor econômico, o setor assume um papel ecológico estratégico por meio da economia circular. Ao prolongarem a vida útil das edições, os estabelecimentos evitam o descarte precoce de milhares de exemplares, tornando-se uma atividade que ganha urgência diante do volume de resíduos gerados no estado.
Em 2024, Santa Catarina produziu mais de 19,4 mil toneladas de lixo de papel. “Esses livros o pessoal botava tudo fora”, resgata Ivete Berri. Nesse cenário, os sebos deixam de ser apenas comércios nostálgicos e firmam-se como agentes de sustentabilidade urbana, garantindo que o conhecimento continue circulando.
Essa capacidade de se reinventar e fazer o papel circular é o que permite aos sebos resistirem às transformações do mercado editorial e ao avanço do consumo digital. Mais do que pontos de venda de usados, esses estabelecimentos seguem funcionando como espaços de preservação e memória, mantendo obras ativas por décadas e conectando leitores de diferentes gerações.
É por isso que, para o biblioteconomista Marcelo Cavaglieri, o setor ultrapassa a lógica exclusivamente comercial. O especialista defende, em artigo, que grande parte desses espaços exercem uma função social indispensável, ligada diretamente à democratização do acesso à informação, à leitura e à cultura.
Essa dimensão cultural e comunitária é o que atrai leitores como Lucas Brisot. Para ele, os livros carregam memórias que vão muito além do conteúdo escrito nas páginas. “Além da história do livro, tem a história da pessoa. Eu acho que isso carrega uma emoção muito grande”.


Além do acervo de livros muitos sebos também comercializam antiguidades, vinis, CDs e DVDs. Como o Sebo Cia do Saber (esq.) e Portal do Saber (dir.) (Fotos: Júlia Graboski)









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