A farsa da preservação sem direitos básicos

Comunidade do Siri denuncia destruição de infraestrutura, abandono de escombros e remoções sem aviso prévio pela Prefeitura de Florianópolis

EDUARDA DUARTE

Derli Antunes não sabe mais há quanto tempo vive na Comunidade do Siri. A areia das dunas que envolve a região se acumula contra os muros baixos de sua casa. Natural de Chapecó, trocou o Oeste catarinense pela promessa de estabilidade em Florianópolis. Hoje, divide os dias entre dois empregos para sustentar os dois filhos, o neto, o cachorro Bolt e o gato Faísca.

A família de Derli é uma entre as mais de 3 mil – contagem feita pelos próprios moradores – que vivem na comunidade, no bairro dos Ingleses, localizado no Norte da Ilha. Lá, concentram-se condomínios, hotéis e loteamentos. Enquanto o metro quadrado da cidade alcança a média de 15 mil reais, cresce também a disputa pela permanência de comunidades populares instaladas em áreas ambientalmente frágeis e historicamente negligenciadas pelo poder público.

É nesse cenário que se encontra a Comunidade do Siri. São diaristas, cozinheiros, empreendedores, vendedores e empregados do comércio que ajudam a movimentar o Norte da Ilha durante o verão. “Na temporada, eu trabalho de garçom, faço freelance em hotel, em casamento e em eventos. Também faço obra e faculdade à noite”, afirma Vanderson de Lima Ortiz, morador do Siri há dez anos. Apesar de fundamentais para a economia local, os moradores convivem diariamente com a ausência de políticas habitacionais permanentes.

Norte da Ilha: Comunidade do Siri é localizada nas dunas do bairro Ingleses, em Florianópolis (Foto: Rodrigo Barbosa, Desterro)

A presença do Estado ali quase sempre chega de forma fragmentada: pela polícia ou pelas máquinas de demolição. Foi justamente durante uma dessas operações realizadas no auge do verão de 2026 que a tensão entre moradores e prefeitura se intensificou. Sob a gestão Topázio Neto (Podemos), a Prefeitura de Florianópolis ampliou a Operação Solo Legal, criada em setembro de 2025. Segundo o município, a ação busca combater ocupações irregulares em Áreas de Preservação Permanente (APP).

Para justificar a operação, a prefeitura formalizou o Relatório de Fiscalização Ambiental nº 078/2026 (processo 00028451/2026). O documento alega que as nove casas demolidas – todas sem ordem judicial – estavam desabitadas e em área de preservação. O relatório não está disponível para acesso público, por conter dados de terceiros. 

Porém, testemunhas afirmam que algumas das edificações eram habitadas e que famílias foram surpreendidas pelas operações enquanto estavam trabalhando. Segundo relatos, moradores voltaram para casa e encontraram móveis, roupas e objetos pessoais espalhados entre os escombros. As famílias diretamente atingidas pelas demolições negaram entrevista por medo de represálias e de serem mal interpretadas, como ocorreu em experiência anterior.

Outras demolições atingiram famílias que tentavam melhorar as próprias moradias devido ao risco estrutural das casas atuais. “A casa da minha irmã estava caindo, aí ela ganhou o material de uma igreja. Estava quase pronta, só faltava cobrir. Aí final de semana eles vieram e derrubaram tudo, moeram, passaram com a máquina em cima para não sobrar nada”, relata Derli.

“É contraditório do ponto de vista ambiental”, afirma Marcelo Scherer, defensor público. “Manter os entulhos no local é uma estratégia deliberada para que as pessoas não construam de novo. Não é deficiência do serviço de limpeza, é uma tática de impedimento.”

Demolição: Acumulam-se os escombros deixados pela prefeitura em Área de Preservação Permanente (Foto: Rodrigo Barbosa, Desterro)

As demolições também são feitas em meio a uma disputa judicial sobre os limites das ações administrativas realizadas pelo município. A sentença judicial nº 5002500-75.2019.8.24.0023/SC, da Vara da Infância e Juventude, determina que o Município de Florianópolis não realize demolições em moradias habitadas sem ordem judicial específica. A decisão reconhece a situação de vulnerabilidade social das famílias da comunidade, especialmente de crianças expostas às remoções. 

Para Marcelo, as operações executadas pela prefeitura revelam uma política de fiscalização que, muitas vezes, desconsidera a dimensão humana da ocupação. “A partir do momento em que uma moradia é derrubada sem o devido processo legal, aquela pessoa deixa de ser tratada como sujeito de direitos”, afirma.


Objetos nos escombros: diversos pertences foram encontrados em casas demolidas (Foto: Rodrigo Barbosa, Desterro)

Nem água se garante

Além das remoções, moradores também denunciam danos à infraestrutura improvisada utilizada pela comunidade para acesso à água. Durante o verão, quando a população dos Ingleses aumenta por conta do turismo, o fornecimento de água na região se torna ainda mais instável, podendo deixar famílias sem água por até três semanas. Sem regularização plena da rede hidráulica, muitos moradores afirmam que passaram a utilizar cisternas improvisadas para armazenar e distribuir entre vizinhos.

“O primeiro verão que eu passei aqui eu sofri. Aí pensei: não, nos próximos eu não vou mais sofrer, vou arrumar uma cisterna, porque, já que a gente não está pagando, então tem que se organizar”, conta Derli.

Segundo moradores, caixas d’água foram destruídas durante as operações. “E aí não tem água, daí tu faz o quê? Tu junta um dinheiro, compra uma caixa d’água, a polícia vem, a patrola vem e faz o quê? Destrói. Arrancam as mangueiras e levam embora”, relata Eduarda Steffani, moradora da região desde 2018. Os episódios não foram mencionados no relatório oficial consultado pela reportagem. 

A comunidade afirma que pedidos de regularização dos serviços básicos já foram encaminhados ao município, mas não houve retorno efetivo. Segundo relatos, a cada quatro anos surgem promessas de vereadores sobre a regularização da água. Até hoje, porém, nada foi implementado.

“Privar as pessoas de meios de sobrevivência é uma forma também de produzir uma agressão, de tentar inviabilizar a chance de elas manterem a sua condição de viver naquele território”, afirma Prudente Mello, presidente da Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil de Santa Catarina (OAB/SC). 

Sem solução: A Prefeitura de Florianópolis não ofereceu alternativas para substituir caixas d’água destruídas (Foto: Rodrigo Barbosa, Desterro)

O coletivo

Diante da ausência de políticas públicas, a comunidade passou a construir soluções para garantir dignidade mínima aos moradores. Enquanto famílias desabrigadas encontram acolhimento nas casas dos vizinhos, moradores também organizam espaços para as crianças da região, como um pequeno parquinho construído de forma coletiva.

É nessa mesma rede de apoio que se encaixa o trabalho de Eduarda, responsável pelo único projeto social da comunidade. O Projeto Siri promove e organiza ações voltadas às crianças em datas comemorativas como Páscoa e Natal. “O que me cativa, o que me dá ânimo, é lembrar do que minha avó me ensinou: que a caridade é linda. Eu cresci nisso”, diz Eduarda.

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