Exposição “Cartografias Cuier” ganha novo formato e-book
Projeto reúne instalações, fotografias, relatos e mapas artísticos de vivências LGBTQIAPN+
LUÍSA PAZ
A amostra “Cartografias Cuier”, realizada em Florianópolis entre 10 de dezembro de 2025 e 10 de janeiro de 2026, recebeu uma versão digital. Idealizada pelos produtores culturais, Thomas Dadam e Arthur Gomes, a exposição, promovida pela produtora BAPHO cultural, apresenta memórias e vivências da comunidade LGBTQIAPN + da capital, com histórias que se estendem até a década de 1970. O evento acontecia, presencialmente, na Galeria Lama, e a partir de 30 de abril passou a ser disponibilizado ao público no formato de e-book em PDF.
Segundo Thomas, o “Cartografias Cuier” surgiu por meio de um acúmulo de experiências profissionais que obteve nos últimos dez anos, por exemplo, sua atuação como Conselheiro de Cultura LGBT no Conselho Municipal de Política Cultural de Florianópolis. O produtor sentiu necessidade de olhar para sua própria trajetória e entendê-la dentro de um contexto maior, como parte de um movimento coletivo, histórico e contínuo. Além disso, suas pesquisas recentes sobre a história da comunidade trouxeram à tona problemáticas em relação ao grupo, como a ausência de espaços. “Grande parte dessas histórias sobrevive na oralidade, sustentada pelas pessoas que vieram antes de nós, e que também estão partindo. A exposição nasce, então, desse desejo de mapear, organizar e visibilizar essas trajetórias, além de poder me reconhecer nelas”, afirma.
A nova opção mantém a proposta anterior de divulgar símbolos de resistência da comunidade, por meio de instrumentos artísticos. Entre eles, “Estado de Graça”, releitura da bandeira de Santa Catarina, que incorpora as cores LGBTQIAPN+ e Trans para criticar a simbologia institucional e debater as dinâmicas de visibilidade. Já em outro momento, a exibição da bandeira “Na volta a Revolta”, obra costurada à mão, que contém o mapa da ilha de Florianópolis ao centro, de onde partem fitas nas cores do arco-íris.

A obra “Cartografias Cuier”, que dá nome ao evento, também se destaca, e combina mapas e palavras que revelam percursos afetivos na cidade. Além disso, “Retrato de Nós”, que apresenta relatos de personagens importantes do movimento LGBTQIAPN+ e lugares considerados marcantes para a diversidade. Nomes como Elaine Sallas, Guilhermina Cunha, Arthur Gomes, Father Izhy e Ingrid Sataré Mawé são citados.
Para Thomas, a arte entra como linguagem de mediação, e que é por meio dela que essas memórias se tornam sensíveis, acessíveis e capazes de gerar identificação com outras pessoas. O diretor afirma que a exposição não busca apenas informar, mas provocar uma experiência capaz de ativar afetos e deslocar percepções. “A mostra se posiciona como um espaço de visibilidade, mas também de tensionamento, ao evidenciar lacunas, perdas e disputas em torno da memória coletiva e do território que ocupamos. Recuperar e organizar essas histórias é, por si só, uma ação política”, destacou ele.
A vereadora e ativista, Ingrid Sateré Mawé (Psol), mencionada no trabalho, recebeu o convite diretamente da BAPHO cultural, e construiu sua parte de “Retrato de Nós” por meio de uma entrevista com os realizadores. Segundo Ingrid, a conversa foi emocionante, e marcou a importância da ocupação dos corpos da comunidade em posições de poder. “Demonstra a necessidade de não deixar o apagamento ter força, para mostrar que nós podemos sonhar em ocupar esses espaços”, enfatiza.
Da mesma maneira, a coordenadora do Mudiá Coletiva Lésbica, Guilhermina Cunha, diz que a memória, principalmente de espaços físicos como bares, cafés e ruas de carnaval frequentados pela comunidade tem seu valor social. “Trazer essa lembrança à tona mostra para a gurizada mais nova que tudo isso existe há muito tempo”, destaca. Ao ser questionada sobre o novo formato da exposição, Guilhermina diz que o e-book permite que a amostra chegue a espaços que não se restringem a Santa Catarina.
O processo de seleção de pessoas para o “Retrato de Nós” foi feito a partir de uma série de critérios como a diversidade de trajetórias, a representatividade de diferentes períodos históricos e a variedade de experiências dentro da própria comunidade, de acordo com Thomas. O olhar também foi atravessado por gênero, raça e deficiência. “Havia uma preocupação em não construir uma narrativa única, mas sim um conjunto de camadas, que, juntas, ajudaram a compor uma leitura mais complexa dessa cidade”, afirma.

O produtor ressalta que a amostra física proporciona uma experiência sensorial e imersiva, onde o corpo está presente no espaço, em relação direta com as obras e com outras pessoas. Já a digital amplia o alcance, permite circulação contínua e possibilita que o conteúdo seja acessado em diferentes tempos e contextos. Enquanto a física é marcada pela presença e experiência, a virtual se consolida como registro e ferramenta de difusão. “São formatos complementares, que atuam de maneiras distintas, mas que se fortalecem”, pontua.









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