Plano Estratégico de Florianópolis ameaça Turismo de Base Comunitária no Morro da Cruz

Prefeitura mapeou mais de 100 pontos turísticos para intervenções da iniciativa privada; Moradores alegam que iniciativa apaga história local

por INGRID CALIXTO e FELIPE PAZE

Subindo a rua 13 de Maio, no centro de Florianópolis, próximo a entrada do Túnel Antonieta de Barros em frente a Praça da Lagoinha, há um lance de escadas que leva à uma vista, conhecida pelos moradores como a mais bela da ilha. O trajeto passa por vielas da comunidade do Morro do Mocotó, com muros e construções pintadas em grafite que formam uma galeria de arte a céu aberto. Você também verá quadras de futebol, onde crianças jogam bola no recreio, menos no fim de semana, quando soltam pipa no pico do morro. Assim como, comércios locais, bares e restaurantes, tal qual o famoso Pico do Mané, que começou como um pequeno negócio no quintal da casa de uma moradora.

O Mocotó é uma das 20 comunidades que integram o conjunto do Maciço do Morro da Cruz, na região central de Florianópolis. O local é símbolo do refúgio de populações marginalizadas da capital, com mais de 50 mil moradores. O Maciço, por mais que esteja localizado no coração da ilha, é pouco conhecido pela sua riqueza cultural, por isso, é referido por moradores como “uma cidade dentro de uma cidade”. A guia de turismo Sandra Cristina Nascimento, coordenadora do Turismo de Base Comunitária (TBC) do Monte Serrat, define essas cidades como o morro e o asfalto. “A gente conta histórias que não são contadas lá embaixo, porque não tem nos livros. Se for um guia lá de baixo, não vai saber falar de nada porque ele não nasceu aqui, ele não mora aqui, ele não vivencia”.

O Mocotó foi a primeira comunidade do Maciço a ser habitada, no século XVIII, e conta hoje com mais de 8 mil moradores (Foto: Felipe Paze / UFSC)

O TBC possui como característica principal ser guiado e elaborado pela própria comunidade e beneficiar os moradores locais. O passeio é desenvolvido com a participação de todos os membros da comunidade interessados em colaborar. A proposta é que o lucro obtido seja compartilhado, o que torna a atividade proveitosa para todos. “Fazemos a caminhada e paramos lá embaixo na casa do Fabiano. Ele recebe uma porcentagem. Vamos no terreiro de Umbanda e o local recebe uma porcentagem. O TBC é isso. Ele veio para gerar dinheiro dentro da comunidade. Não só eu ganhar. Eu ganho, ele ganha, o nosso ganha”, explica Sandra. 

A Prefeitura Municipal de Florianópolis (PMF), por sua vez, tem outros planos para o Maciço. Pensando no desenvolvimento da cidade e no reconhecimento de atrativos turísticos não aproveitados, a gestão municipal lançou o Plano Estratégico de Turismo – Visão 2033, em 9 de abril de 2025. O documento justifica que “foi produzido com objetivo de transformar a cidade em um Destino Turístico Inteligente, integrando inovação, sustentabilidade, acessibilidade e uma experiência turística de alta qualidade”. Segundo o Subsecretário da Secretaria Municipal de Turismo, Desenvolvimento Econômico e Inovação, Renê Meneses, o plano não é uma política pública, mas sim uma ferramenta para decidir o investimento do Estado. “A gente consegue uma orientação sobre de que forma devemos investir a nossa rubrica e recursos para atender o turista. O plano está servindo como base para nossas ações aqui na Secretaria”, afirma. 

O Plano mapeia os principais atrativos da cidade e propõe diferentes intervenções para cada. Finalizado no início deste ano, o documento já começou a ser implementado. A iniciativa foi desenvolvida pela Prefeitura em parceria com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae). Assim, os investimentos que surgem com a implementação são divididos igualmente entre o poder público e a iniciativa privada. Segundo Renê, a parceria com o Sebrae busca aproximar os microempreendedores e intermediar o diálogo com as comunidades que praticam o TBC.

O documento preocupa pequenos negócios e ações turísticas comunitárias pela cidade, em especial o Turismo de Base Comunitária do Maciço do Morro da Cruz. Moisés Nascimento, presidente da Frente Juventude Voz das Favelas, afirma que o Mocotó foi contra a proposta do Plano. “É absurdo. Não tem incentivo algum para a comunidade pela preservação ou concessão do espaço. Quem que vai cuidar senão os próprios moradores? Privatizar para quem? A empresa não tem papel fundamental dentro do nosso território”.

Moisés Nascimento na organização da Galeria de Arte do Mocotó, promovida pelo quadro de lideranças comunitárias do morro, o instituto Cidades Invisíveis e o Rolê do Mocotó (Foto: Sarah Pretto / UFSC) 

A pesquisadora Daniela de Carvalho, autora da tese “Atrativos turísticos e Turismo de Base Comunitária a partir do lugar: estudo de caso de Florianópolis”, afirma que o Plano desconsidera o desenvolvimento comunitário, territorial e sustentável do espaço. Para Daniela, também professora de Gestão de Turismo do Instituto Federal de Santa Catarina (IFSC), o documento enxerga o TBC com olhar empresarial, com recursos externos que fazem a leitura do território sem nenhum vínculo de pertencimento. “O atrativo turístico é uma leitura possível da cidade. Nós temos muitas Florianópolis que a Prefeitura pode vender. Pode ser a Florianópolis do Sol e do Mar? Pode, mas nós temos comunidades e realidades muito diferentes na cidade. Deve ser proposto um turismo cultural de troca, e não um turismo de mercadoria e produto desassociado ao território”, afirma Daniela. 

Além dos impactos econômicos, o TBC é uma forma de contar histórias que raramente ganham espaço na grande mídia e combatem estigmas. Enquanto a colonização açoriana de Florianópolis segue como símbolo mais lembrado e valorizado pela mídia local, o TBC se propõe a resgatar a memória e o protagonismo da população negra na história da capital. Moisés conta que essa luta vem dos próprios moradores, que trabalham para que a periferia seja vista como potência. “Nosso intuito é contar nossa história. Mostrar que tem periferia, tem povo preto, tem morro quilombola, tem morro de resistência em Florianópolis e que nossa história merece ser contada”, afirma.

Assim, por meio das histórias de suas próprias famílias, os moradores reconstroem narrativas apagadas. “Por que dizem que Florianópolis é uma cidade colonizada por açorianos? E os indígenas que viviam aqui? Depois vieram os açorianos e, porque precisavam de mão de obra, chegaram os negros,. Toda aquela construção que tem no Centro, vocês não veem que tem a mão e o sangue negro?”, questiona Sandra. Para Daniela de Carvalho, em contrapartida, o Plano apresenta um turismo hegemônico e de massa, impossível de ser replicado nos moldes do Turismo de Base Comunitária. “O modelo de turismo que a gente tem é desumanizado. Eu produzo, eu compro, eu consumo. O TBC é uma nova maneira de se fazer turismo que não se encaixa no segmento mercadológico. O principal objetivo do TBC é o cuidado com a cultura, preservação e o patrimônio local”.

Grafite no Mocotó. “Houve reuniões com a Prefeitura, mas nos encontros os moradores tinham cinco minutos de fala. Como vou esclarecer todas as demandas da minha comunidade com esse tempo?’’, afirma Warley Alvarenga, do jornal Desterro (Foto: Felipe Paze / UFSC)

Segurança é usada como argumento, mas não chega aos moradores

A relação com o território é uma questão importante para a comunidade. Segundo a assistente social da Prefeitura Municipal de Tijucas e autora da tese “Violência policial, racismo e periferia: uma análise dos moradores do Maciço do Morro da Cruz”, Patrícia Lúcia da Silva, a Prefeitura não vê a periferia como pertencente ao seu território. “Isso acontece desde o processo de favelização em Florianópolis, no qual os moradores foram empurrados para os morros. O Estado não enxerga essa população como digna de moradia, saúde, educação, mas sim, como pessoas que não deveriam ocupar aquele espaço”. 

Jornalista e morador do Morro do Mocotó, Warley Alvarenga, membro do Portal Desterro – Observatório da Violência em Florianópolis, relata que a comunidade carece de recursos básicos pela falta de interesse público. “Tem o posto de saúde da Prainha que fica no pé do Morro. Para uma senhora que mora no topo do Mocotó, fica difícil ir até lá. Aí alegam que falta demanda para trazer recursos, mas, a partir do momento em que a própria população não é consultada sobre a necessidade que ela mesma vive, acaba-se criando essa exclusão”. 

Atualmente o Viva Monte Serrat, de Sandra Nascimento, enfrenta um vazamento de esgoto em uma das paradas do Caminho das Lavadeiras, um dos três roteiros turísticos oferecidos pelo TBC. A guia e liderança comunitária do Monte Serrat, Simone de Almeida de Maria, conta que o caminho apresenta a história das mulheres negras que começaram a lavar roupa no Rio da Bulha, que cruzava a Avenida Hercílio Luz no centro de Florianópolis, e foram expulsas para o alto do morro. “A gente está enfrentando esse problema com o esgoto essa semana, então esse caminho está interditado. Nós ligamos para a Casan e até agora nada”, relata Simone. Casan é a Companhia Catarinense de Águas e Saneamento Básico, responsável pelo esgotamento em Florianópolis.

“Não tem como você ditar dentro do nosso território sendo que você não faz o mínimo. Porra, os caras não ajudam a gente em nada e agora querem privatizar o morro?”, crticia Moisés Nascimento. Segundo o líder, a cidade trabalha para que o Maciço seja invisibilizado, vendendo uma Florianópolis sem a presença social e histórica da cultura negra e quilombola. “Eu tenho certeza que a Prefeitura consegue ver que há um potencial muito grande para o turismo no nosso território. Eles tentam privatizar para que, de alguma forma, esse recurso não venha para as comunidades. Quando esse dinheiro está indo direto para o bolso de um morador da favela, é inaceitável para eles”, critica.

Para a Prefeitura, é o documento que irá trazer a infraestrutura. “O Plano nos direciona à forma de promoção do destino, os principais atrativos turísticos da cidade que precisam de intervenção, para fazer com que aquele lugar seja adequado e seguro para receber o turista”, argumenta o subsecretário de Turismo, Renê Meneses. Para ele, o papel do poder público na criação do Plano Turístico é fornecer infraestrutura, mobilidade e segurança aos moradores. “Vamos ser sinceros, se tu for lá no mirante do Morro da Cruz agora, você vai se sentir inseguro. Quando se fala no plano, é para que a gente possa dar uma estrutura adequada para receber o turista e garantir que ele possa se sentir seguro no mirante do Maciço”, afirma Menezes.

Segundo Warley, levantamento do jornal Desterro afirma que não há troca de tiros pelos moradores do Mocotó contra a polícia. “A violência nunca parte da comunidade”, esclarece (Foto: Felipe Paze / UFSC)

Segundo a professora do Curso de Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Clarissa Dri, a segurança promovida pelo poder público se opõe com a experiência dos moradores do Morro do Mocotó. Clarissa é pesquisadora do Instituto Memória e Direitos Humanos da UFSC, que durante três anos ouviu 115 moradores em 13 rodas de conversa junto a professores, psicanalistas, alunos da graduação e mestrado para produção do relatório “Representação da violência Policial: rodas de conversa com comunidades e profissionais de Florianópolis”. “Dos relatos dos moradores que escutamos, a gente vê duas cidades paralelas convivendo. O asfalto, que acha que o Estado está ali para proteger. E a periferia que acredita que a polícia está ali para roubar e para matar”, explica. 

Para a pesquisadora, a imagem turística de Florianópolis é da Beira-Mar e das praias, o que exige um contingente policial para operar naquelas regiões. “Esse método reforça a divisão do orçamento e serviços públicos ofertados para locais turísticos de maior visibilidade e não para as comunidades que precisam do apoio do serviço público. Então, o turismo traz segurança para quem? Acho que para o turista traz, mas não para o morador das comunidades periféricas, que representa 70% da população de Florianópolis”, enfatiza Clarissa.

Pedido de paz pintado no início da escadaria do Mocotó. “Não tem nada que cause mais medo em uma mãe do que quando o filho tá brincando na rua e o foguete estoura no céu”, diz Moisés. Os fogos indicam aos moradores a presença de policiais no Morro (Foto: Felipe Paze / UFSC)

Outras iniciativas auxiliam desenvolvimento do TBC

Com pouca presença estatal no Maciço, é comum que Organizações Não Governamentais (ONG) surjam para sanar a carência de recursos. Uma delas é o Instituto Padre Vilson Groh (IVG) que, entre as diversas ações na comunidade, fornece cerca de 150 cestas básicas e entrega de 200 a 300 marmitas todo domingo para as pessoas em situação de rua. Segundo a coordenadora de projetos sociais do IVG, Kelly Souza, o instituto existe há 14 anos e surgiu com o objetivo de desenvolver o empreendedorismo das comunidades. “A gente sempre busca trazer o público periférico para os nossos programas. O padre Vilson sempre fala que o Instituto age como uma ponte, entre a periferia e o centro”. 

O IVG, em parceria com o Sebrae, também realizou um curso de turismo para qualificação de guia turístico para os moradores do Monte Serrat. “A ideia é trazer um pouco mais de embasamento teórico e prático para que eles possam conduzir os roteiros e receber os turistas”. Para Kelly, o TBC é sem dúvida uma maneira da comunidade gerar uma renda extra, já que ele movimenta não só quem está à frente, mas sim todo o comércio local,  “Você faz uma parada ali na vendinha que oferece um café ou lanche. Eles programam alguns alguns eventos onde tem restaurante, que tem uma roda de samba. Então ele acaba movimentando a economia de todo o território”. 

Outra iniciativa que busca ajudar o Turismo de Base Comunitária é a Lei 11.457 de 2025. Proposta pelo ex-vereador e deputado estadual Marquito (PSOL-SC), ela institui a Política Municipal do Turismo de Base Comunitária e foi aprovada em junho. “A nova lei garante a gestão local de visitas a sítios naturais, sagrados e socioculturais, promove a valorização histórica e cultural de grupos sociais vulneráveis, fomenta o comércio justo e a economia solidária, cria um cadastro municipal de atividades do TBC e estimula o sentimento de pertencimento nas comunidades”, escreveu a Câmara Municipal de Florianópolis em texto sobre a aprovação do projeto de lei, que foi sancionado em setembro.

Projeto aprovado por CMF foi sancionado em outubro de 2025 (Foto: Divulgação / Câmara Municipal de Florianópolis)

Entretanto, um empecilho na lei é a obrigatoriedade da formação como guia turístico para realização do TBC. “Que formação é essa? Nós que vivemos dentro do território, a gente é quem anda dentro da comunidade, da onde a gente vai tirar essa formação?”, questiona Moisés Nascimento. “Eu posso falar que o meu pai era vendedor de cachorro-quente, vendedor de laranja, tinha criação de galinha e cabra no meio da escadaria. Eu posso contar essas histórias porque eu vivenciei, eu passei por isso aqui. São histórias que não é qualquer um que pode contar, esse é o nosso diferencial”, afirma Sandra.

No Viva Monte Serrat, Dona Sandra sempre recomenda a caminhada da natureza, subindo a rua Nova Descoberta. O caminho passa pela escola de samba Copa Lord, sobe lá em cima perto do heliponto, desce a Caeira dando a volta ao morro e para no almejado Mirante do Maciço do Morro da Cruz. O passeio termina na igrejinha do Monte Serrat, com um pastelzinho e bananinha frita da Dona Chica. O roteiro depende do dia — semana passada a parada foi no Bar da Mitz que colocou para tocar um reggae e serviu comida de boteco. “Meu sonho sempre foi trazer o turista para conhecer a minha comunidade”, diz Sandra, com um sorriso largo.

Traços culturais de uma Florianópolis dentro de outra Florianópolis, o morro e o asfalto (Fotos: Nathalia Luna / UFSC)

*contribuiram com edição Maitê Silveira e Arthur Westphalen

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