Peça combina teatro e mágica para retratar realidade de pacientes com Alzheimer
Espetáculo apresentado em Florianópolis utiliza ilusionismo para representar sintomas da doença e promover conscientização sobre condição que afeta quase 2 milhões de pessoas no Brasil.
ELIS VIRGÍLIO
A peça A Maçã, integrante da programação do Festival Palco Giratório Sesc 2026, foi apresentada no Teatro Álvaro de Carvalho (TAC), em Florianópolis, na quinta-feira de Corpus Christi, dia 4 de junho. Idealizado pelo mágico e ator paulista William Seven, o espetáculo acompanha a trajetória de Nicolau Souberdes, um ilusionista idoso diagnosticado com Alzheimer. Ao longo da narrativa, recursos de mágica são utilizados para representar a confusão mental e a perda da memória recente, sintomas característicos da doença.
Segundo William, a escolha de abordar o Alzheimer pela perspectiva do próprio paciente não foi por acaso. De acordo com ele, a maioria das obras artísticas que tratam do tema costuma focar nos familiares e cuidadores. “Queremos dar voz aos pacientes que muitas vezes são segregados e tratados com pouco caso”, diz o mágico. Por isso, a equipe também optou por apresentar o assunto com seriedade. “Não poderíamos fazer disso uma piada, retratar um idoso caricato”, afirma William.
Dados do Relatório Nacional sobre a Demência, divulgado pelo Ministério da Saúde em 2024, indicam que cerca de 8,5% da população com 60 anos ou mais convive com algum tipo de demência, o equivalente a 1,8 milhão de pessoas. O estudo aponta ainda que esse número pode triplicar até 2050, alcançando 5,7 milhões de casos.
Os números reforçam a importância da conscientização sobre a doença. Embora o Alzheimer não tenha cura, o diagnóstico precoce pode contribuir para mitigar a progressão dos sintomas por meio do tratamento adequado. Para a professora de enfermagem da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e líder do Laboratório de Estudos sobre Cuidado e Saúde de Pessoas Idosas (Gespi), Melissa Locks, os estigmas sociais dificultam a identificação da doença em seus estágios iniciais. “A crença de que os sintomas são naturais do envelhecimento e o tabu em falar sobre a doença mostra que a sociedade ainda não está preparada para lidar com os pacientes”, afirma.
A Maçã se insere em um contexto de conscientização sobre o Alzheimer e identificação do público com a história retratada. William relata que, ao final das apresentações, alguém sempre o aborda para compartilhar sua história sobre um parente que tem Alzheimer. “A ideia é tocar as pessoas, mas também mostrar que a doença é um problema sério que afeta milhões de pessoas e que pode acontecer com qualquer um”, explica o mágico.
O espetáculo teve origem de um número de ilusionismo de William que recebeu o Grand-Prix Latino-Americano de Mágica de Proximidade em 2017 e que conquistou o quarto lugar no campeonato mundial da modalidade em 2018. A partir dessa experiência, o artista desenvolveu a peça ao unir teatro e ilusionismo em uma mesma narrativa. Segundo William, conciliar as duas linguagens exige equilíbrio entre a representação fiel da realidade e os elementos impossíveis da mágica. “Queria que o teatro emocionasse e que o ilusionismo encantasse”, resume.
Entre os espectadores que acompanharam a apresentação no TAC estava Silvia Rodrigues dos Santos. Para ela, que também é artista, o espetáculo se destaca tanto pela reflexão proposta quanto pela utilização dos truques de mágica como recurso narrativo. “Acho que passou muita verdade e a arte dele foi o que deu um toque especial”, diz Silvia.









Publicar comentário