O desafio de garantir o bem-viver na terceira idade

Crescimento de população idosa em Florianópolis mobiliza atendimento de saúde domiciliar, apoio a cuidadores e projetos de convivência

JOÃO HASSE

A professora aposentada Dezalda Dias observa da janela de sua casa as transformações de Florianópolis, uma capital que se transfigurou, com o tempo, de uma antiga vila com traços rurais para uma metrópole urbana. 

Aos 90 anos, Dezalda vive com limitações físicas, mas encontra nas sessões  de Fisioterapia o apoio para enfrentar os desafios do envelhecimento. Afastada das salas de aula, ela realiza atividades físicas em casa e participa do grupo de idosos do bairro Pantanal, no coração da Ilha, onde mora desde sua infância. “As ruas eram de barro, eu ia trabalhar de carroça, mas hoje, as coisas mudaram”, testemunha.

A rotina programada entre os 10 filhos garante que Dezalda mantenha seu bem-estar sem precisar deixar o núcleo familiar. No registro, a idosa aparece acompanhada de sua filha Josiane. Foto: Acervo pessoal

Essa mudança na vida de Dezalda mostra a realidade da capital catarinense, que hoje é o lar de 91,6 mil idosos, segundo o Censo de 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Florianópolis ocupa o segundo lugar em número de população idosa em Santa Catarina, atrás apenas de Joinville. Os dados apontam que a capital atingiu a marca de 537,2 mil moradores, com um índice de crescimento anual estimado em 2,5%. 

Florianópolis possui um Índice de Envelhecimento de 110,6 — maior que a média estadual, de 83,2, e da nacional, de 80, ainda segundo o IBGE. Isso significa, na prática, que existem 110,6 pessoas com 65 anos ou mais para cada 100 crianças de até 14 anos. 

Essa proporção altera a estrutura da pirâmide etária local ao reduzir a base e alargar o topo — movimento que indica um envelhecimento progressivo da população. Demograficamente, a transição acontece devido à queda no nascimento de bebês e ao aumento da expectativa de vida das pessoas no Brasil.

Pirâmide etária de Florianópolis

O índice populacional da capital catarinense possui idade mediana de 36 anos. Foto: IBGE/Censo Demográfico 2022/Reprodução

Para o professor José Messias Bastos, do Departamento de Geociências da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), o fenômeno está ligado ao processo histórico do país. O docente explica que, entre 1930 e 1980, o Brasil passou por um processo de industrialização e urbanização acelerado com alta taxa de natalidade, gerando uma pirâmide de base larga. Atualmente, o cenário mudou e a base da estrutura etária encolheu.

Segundo o pesquisador, além do crescimento natural interno, a metrópole atrai um fluxo migratório específico. “A cidade recebe idosos com 60 anos ou mais ou ainda adultos que estão bem perto de chegar à terceira idade”. O especialista da UFSC aponta que fatores como a segurança, o alto Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) e as características naturais da ilha são os principais atrativos para aposentados de média e alta renda, como juízes, médicos e funcionários públicos, exemplifica. 

Diante desse cenário, o professor ressalta que o envelhecimento precisa ser pensado de forma integrada. “Envolve urbanização, acessibilidade, além dos impactos econômicos e sociais na vida de quem envelhece”, pontua. Na capital catarinense, esta união ocorre entre os serviços de assistência social e a Secretaria Municipal de Saúde (SMS). A cidade adota as diretrizes da Estratégia Brasil Amigo da Pessoa Idosa (EBAPI), que virou a Lei Municipal 11.254 em 2024.

Saúde perto de casa

A proximidade do cuidado é uma das estratégias de Florianópolis para lidar com este cenário desenhado pela migração e pelo aumento da longevidade. Por meio da SMS, a Prefeitura divide o serviço pelos bairros para que as equipes fiquem mais perto da população. 

Fernanda Viana, Médica de Família e Comunidade do Departamento de Integração Assistencial (DIA), explica  que a cidade conta com 50 Centros de Saúde (CS), que funcionam como os postos locais, e detalha que cada uma dessas unidades possui uma equipe de Saúde da Família. Segundo a profissional, as equipes são compostas por médicos, enfermeiros, técnicos em enfermagem, agentes ou técnicos comunitários de saúde, auxiliares de saúde bucal e dentistas.  

Criada pela avó, Fernanda conta que a escolha pela profissão nasceu inspirada pelo que vivenciou com sua própria família. Dentro de casa, ela pôde observar como as pessoas envelhecem de forma diferente e nem sempre com o mesmo acesso aos serviços básicos — o que voltou seu olhar, desde cedo, à medicina da família. Por isso, quando entrou na faculdade, já sabia qual caminho queria seguir. Para a profissional, o Estatuto da Pessoa Idosa é a base legal que tenta garantir proteção integral, priorização e visibilidade para esta parcela da população que cresce de forma acelerada.

Na rotina dos bairros, o agente comunitário de saúde, junto com a equipe médica e de enfermagem, vai até a casa dos moradores que não conseguem caminhar ou se deslocar até os Centros de Saúde. A médica de família e comunidade explica que a atuação destes profissionais funciona por meio do princípio da equidade do Sistema Único de Saúde (SUS) “O objetivo é dar suporte prioritário  aos  cidadãos  com  maior  vulnerabilidade”, afirma.  

Fernanda  esclarece  que  os profissionais mapeiam a região para identificar quem está restrito ao leito ou ao domicílio e que, a partir deste processo inicial de busca ativa e cadastramento das pessoas, é possível assistir quem não pode ir até a unidade de saúde local. 

Quando o quadro monitorado é mais complexo, a equipe multiprofissional (E-Multi), que reúne psicólogos, fisioterapeutas, educadores físicos, assistentes sociais e nutricionistas, passa a atuar em conjunto com a equipe do Centro de Saúde, mediante disponibilidade local, no atendimento para “criar um plano de cuidados mais personalizado e integral”, especifica.

O monitoramento contínuo serve para orientar o trabalho nos postos, onde as pessoas idosas assistidas devem ser estratificadas pelo Índice de Vulnerabilidade Clínico-Funcional-20 (IVCF-20) em três grupos de acordo com a capacidade de fazer as tarefas do dia a dia, explica a médica Fernanda. 

O primeiro é formado por indivíduos robustos, que se caracterizam por serem totalmente independentes e autônomos, conseguindo caminhar, tomar banho e fazer compras sozinhos, mesmo que já possuam algum tipo de doença crônica leve ou controlada. Os critérios técnicos defendidos pelas médicas da rede apontam que o segundo perfil é composto por pessoas idosas em risco de fragilização, que começam a mostrar os primeiros sinais de limitações físicas ou de memória e precisam de suporte para evitar problemas graves como infarto ou acidente vascular encefálico (AVE). O terceiro grupo, conforme a classificação descrita pela especialista do DIA, é o da pessoa idosa frágil, aquele que já perdeu a independência e necessita de ajuda imediata e contínua para funções básicas, como se alimentar ou tomar banho.

O acompanhamento pronto e permanente deste último perfil é necessário porque a falta de suporte pode agravar o quadro clínico rapidamente. A médica aponta que, quando o paciente entra na chamada Síndrome da Fragilidade, o risco é alto. A literatura médica mostra que a falta de um cuidado integrado para esse idoso frágil pode levá-lo a maior risco de quedas, hospitalizações, declínio funcional e morte. 

Essa realidade motivou as Referências Técnicas da Saúde da Pessoa Idosa de Florianópolis a desenharem ações específicas para apoiar quem cuida dessas pessoas em casa. 

A médica de família e comunidade Alice Pacheco, que divide esta coordenação na Secretaria Municipal de Saúde, levou a demanda ao Conselho Municipal da Pessoa Idosa após ouvir as necessidades da comunidade e criou o projeto Cuidado Quirido, que busca capacitar os cuidadores de pessoas idosas frágeis ou em risco de fragilização, em suas residências.

Apoio para os cuidadores

O Cuidado Quirido é uma iniciativa municipal com parcerias do Conselho Estadual do Idoso de Santa Catarina (CEI-SC), Secretaria de Estado da Assistência Social, Mulher e Família (SAS) e Núcleo de Saúde Digital da UFSC. Ela fornece suporte voltado especificamente para quem já cuida de familiares idosos com saúde frágil em casa.

A médica Alice explica que o projeto funciona por meio de três frentes: aulas teóricas com temas como cuidados de higiene e primeiros socorros das pessoas idosas; visitas práticas de profissionais que vão até as residências para ensinar manobras como o banho no leito, curativos, cuidado com quedas; e apoio psicológico especializado para lidar com o esgotamento emocional do cuidador. 

O projeto prioriza o atendimento a pessoas em situação de maior vulnerabilidade do município. Alice define a essência desse trabalho com os familiares que assumiram a função como um suporte, e não somente capacitação, como é formalmente designado. 

Este apoio aos cuidadores complementa outros esforços do poder público de Florianópolis para garantir a permanência e o cuidado da pessoa idosa frágil no núcleo familiar. 

A necessidade de amparo integral descrita pelos médicos reflete a realidade vivida na casa de Dezalda Dias, que conta com o suporte assistencial de seus 10 filhos, de maneira programada para manter sua rotina. 

Uma de suas filhas, a fonoaudióloga Josiane Dias, de 50 anos, relata que o cotidiano exige atenção ininterrupta, mas destaca o valor da união familiar para dar conta da demanda diária de tarefas, que envolve desde a organização da residência até o preparo de refeições e controle de medicamentos. 

Em seu depoimento, Josiane expõe a complexidade emocional e a intensidade que permeia a rotina prática de assistência a um parente dependente. “Os cuidados são 24 horas. São de 15 em 15 dias, mas demandam uma atenção e um cognitivo nosso que cansa muito”, desabafa. 

Ela ressalta, porém, que a ajuda dos outros familiares é essencial para evitar o desgaste físico e mental. “Como a família é grande, eu me sinto um pouco aliviada de não ter que ter esses momentos tão intensos com maior frequência”, explica.

Movimento além do esforço físico

O revezamento e a divisão de tarefas entre os filhos de Dezalda ajudam a amenizar a sobrecarga, permitindo que cada um contribua de uma maneira diferente. De acordo com Josiane, parte dos irmãos ficam responsáveis por reparos e pelo jardim, enquanto as irmãs preparam receitas e fazem costuras. Nessa força-tarefa, Josiane utiliza sua experiência profissional para estimular a comunicação e a memória de sua mãe por meio de conversas e resgate de lembranças. 

Ao avaliar o envelhecimento e o papel das relações sociais na manutenção da própria saúde, Josiane reforça sua percepção pessoal sobre a própria idade e o bem-estar. “Eu, aos 50 anos, não sou velha. É assim que eu me vejo. Uma jovem senhora”, define. 

O envelhecimento também impõe o desafio de olhar para além das paredes de casa para quem já passou dos 60 anos e busca manter a vitalidade e a independência. É essa busca por autonomia, saúde física e novos vínculos que move os idosos que frequentam as quadras e piscinas da UFSC, define a professora Tânia Benedetti, uma das responsáveis pelo projeto de extensão “Atividades Físicas para a Terceira Idade”, desenvolvido pelo Centro de Desportos (CDS) da UFSC.

“Eu penso que a gente mudou a forma de encarar o envelhecimento. Quando começamos, pessoas de 40 anos não saíam de casa”, avalia Tânia. O projeto de extensão, criado em 1985 pelas professoras Maria Cecília Mocker e Marize Amorim Lopes, começou com aulas de ginástica para cinco idosas. A primeira turma formada por homens surgiu quatro anos depois, em 1989.

Registro de 1985 mostra a aula inaugural do projeto da UFSC, que começou com um pequeno grupo de mulheres e décadas depois se tornou referência no atendimento ao idoso robusto na Capital. Foto: Divulgação/CDS/UFSC

Ao longo das quase quatro décadas, a procura pelas atividades aumentou e o projeto expandiu suas ações. “Nós estávamos com 23 turmas e mais de mil idosos, não dávamos conta. Assim, realizamos uma parceria com a Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc), junto com a professora Giovana Zarpellon Mazo, e com a Prefeitura Municipal de Florianópolis”, relata Tânia.

Segundo ela, esta união ajudou a ampliar o atendimento à população idosa em diferentes regiões da capital. Nesse período, o poder público realizou um concurso público para contratar 12 profissionais de educação física para atuar nos centros de saúde municipais. A ação permitiu a criação de grupos voltados à terceira idade em bairros como Serrinha e Santa Mônica.

Atualmente, o projeto atende mais de 250 pessoas distribuídas em nove turmas e conta com o apoio de quatro bolsistas do curso de Educação Física. As práticas incluem ginástica, hidroginástica, natação e vôlei adaptado.

Durante o encontro acompanhado pela reportagem, em 10 de maio de 2026, o movimento começou antes mesmo dos exercícios. As alunas chegaram ao ginásio, cumprimentaram os colegas, formaram rodas e conversaram sobre a semana.

Algumas falaram sobre consultas médicas, enquanto outras comentaram a respeito de viagens, filhos e netos. Quando o treino começou, as idosas se dividiram em equipes sob a orientação da bolsista Luara Ladwig. 

Em uma das dinâmicas, um jogo da velha adaptado com bambolês e cones exigia deslocamento, coordenação motora e cooperação entre o grupo. Em outra tarefa, elas utilizaram elásticos para exercícios de fortalecimento muscular.

Ao todo, 22 mulheres participaram da aula acompanhada pela reportagem. “Eu adoro idosos, desde pequena, sempre quis trabalhar com eles”, afirma Luara. Entre as alunas, os resultados aparecem na rotina. Arlete Silveira, aposentada e participante do projeto destaca esses efeitos no seu dia a dia. “Melhorou a cabeça”, resume.

As conversas ao longo do treino mostram que os encontros semanais cumprem funções que vão além do esforço físico. Os alunos trocam experiências, compartilham histórias e mantêm relações construídas ao longo dos anos de convivência. Para a professora que coordena as atividades no CDS, o trabalho ajuda a criar oportunidades de convívio social. “O exercício físico ajuda, mas o aluno também cria vínculos. As pessoas fazem amizades e continuam participando de atividades fora das aulas”, relata.

As conversas que ecoam pelo ginásio da UFSC e os relatos colhidos nos bairros demonstram que as iniciativas públicas e acadêmicas de Florianópolis operam como uma engrenagem de proteção mútua. Enquanto o projeto universitário estimula a autonomia e a saúde física dos idosos robustos, aqueles que mantêm autonomia e independência, as ações domiciliares e os programas de capacitação dão o suporte necessário para as famílias que enfrentam a exaustão diária no cuidado de pessoas idosas fragilizadas.

De acordo com a coordenação de Saúde da Pessoa Idosa, onde atuam as médicas de família e comunidade Fernanda e Alice, mapear e assistir de perto esses diferentes perfis é a única forma de garantir que nenhuma parcela dessa população fique desamparada frente ao crescimento acelerado da cidade. É no equilíbrio entre o fortalecimento muscular nas quadras, o cuidado em saúde nos postos e o acolhimento técnico aos cuidadores que a capital catarinense tenta construir um modelo urbano no qual envelhecer não signifique o isolamento, mas sim a continuidade da vida comunitária.

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