Entre cabides, samba e recomeços: a história de Josiane Dias

Autenticidade, lembranças e recomeços marcam vida de empreendedora que transformou jardim da casa em brechó cheio de vida

JOÃO HASSE

Na face, ela carrega o amor pela arte e as risadas que o acolhimento gerado pelo samba lhe proporcionou. Com uma história transformada por mulheres empoderadas, Josiane Dias é uma empreendedora do ramo de brechós e em cada garimpo carrega um olhar cuidadoso. No modo de vestir é autêntica e traduz a própria história em cores, texturas e memórias. 

Mas nem sempre foi assim. Josiane é formada em Fonoaudiologia pela Universidade do Vale do Itajaí (Univali). Ao longo da carreira, teve diferentes empreendimentos e, entre idas e vindas, precisou se reinventar. Após deixar a atuação clínica, passou a trabalhar como secretária executiva, até perceber que precisava buscar uma nova alternativa de trabalho: desejava algo mais flexível e próximo das pessoas.

O brechó reflete a personalidade vibrante de Josiane, que transformou a garagem de casa em um espaço de sustentabilidade em Florianópolis. Foto: Arquivo Pessoal/ Josiane Dias

A partir desse sentimento, tentou empreender no ramo da gastronomia fitness. Embora não tenha conseguido se manter na área, decidiu inovar com a criação de sua própria estamparia, a Pé de Quem, dedicada inicialmente à produção de chinelos e camisetas para eventos. Contudo, sua trajetória mudou de rumo novamente depois de uma crise financeira advinda da pandemia de Covid-19, em 2020.

A ideia que mudaria seu futuro nasceu de um momento ordinário: ao observar seus familiares organizando os guarda-roupas, Josiane decidiu fazer uma triagem das peças e iniciar sua missão de recomeço. Assim, colocou sua iniciativa em prática no coração do bairro Pantanal, dentro da garagem de sua casa, ao lado do jardim, em Florianópolis. Foi esse mesmo jardim que inspirou o nome do negócio, dando origem ao Jardim da Jô – Brechó e Presentes. 

Registro do primeiro ano do brechó na garagem de casa mostra a estrutura inicial criada por Josiane, espaço que logo se transformaria em um ponto de encontro no bairro Pantanal. Foto: Arquivo Pessoal/ Josiane Dias

Além de vendedora, Josiane assumiu um papel importante na comunidade local ao fomentar o consumo consciente de peças. O brechó se tornou um espaço de troca, convívio e acolhimento. Eu reencontrei o meu lado comunicativo e vendedor, o lado com o qual eu mais me identificava”, relembra.
  
O som do ambiente também reflete o cuidado das peças escolhidas a dedo. A música é vital para seu brechó. “O samba se faz presente”, define Josiane. Ela conta que gosta mesmo é de ouvir grandes nomes como Beth Carvalho, Elza Soares e Paulinho da Viola. Vintage como os itens que pendem de suas araras.  

Momentos de desafios, porém, ainda existem. Nos dias de verão, a proprietária encontra dificuldades de manter o estabelecimento aberto em horário convencional. Por isso, decidiu mudar. “Eu comecei a abrir o brechó em um horário bem ‘diferentão’, das 15h às 22h”, explica. 

Além de adequar os horários para buscar mais clientes, Josiane também aposta em outras alternativas. Uma delas é a Feira de Mulheres, criada com o objetivo de fomentar o empreendedorismo local entre mulheres de diversos ramos, como a confeitaria, semijoias e moda íntima. 

Além dos percalços do empreendedorismo, Josiane enfrenta obstáculos que obliteram sua vida profissional. Com a voz embargada, ela relata crises enfrentadas para cumprir o papel de mãe, de filha e de mulher. Mesmo com medos e anseios, se desafia a ir mais longe diariamente, relata. Essa ânsia de Josiane é traduzida em um verbo que ela mesmo inventou: “jardine-se”, diz. A expressão quer dizer a ação de imergir-se em um ambiente calmo, colorido e de convívio com os outros, como seu próprio jardim — o que ela faz todos os dias.

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