Cultura hip-hop é protagonista na Marcha da Consciência Negra

O slam, poesia falada, desempenha papel fundamental na união da população negra no Centro de Florianópolis

JP DE SOUZA

Florianópolis é o município com a maior população preta em Santa Catarina. São  35,8 mil habitantes, 6,7% da população, que são as principais vítimas da violência policial. Foram mortas 6,4 mil pessoas em operações policiais na cidade em 2023, e 83% – 5,3 mil – eram corpos negros, conforme levantamento divulgado pelo Sindicato dos Trabalhadores no Serviço Público Municipal em Florianópolis (Sintrasem).

Dados como esses mobilizaram a Marcha da Consciência Negra realizada domingo, 24, no Largo da Alfândega, local simbólico para a cultura negra e periférica da capital. “Escolhemos o Largo por causa da revitalização que fizeram nele. A gentrificação sempre tenta tirar os movimentos, principalmente o hip-hop, produto da cultura negra. Reivindicamos que a juventude negra e os movimentos negros ocupem o Centro”, afirma Chaiane Guterres, organizadora da Marcha.

A organização da população negra é a pauta principal da marcha. Conectar realidades, expor vozes e compartilhar vivências não é uma tarefa fácil, para isso existe um tempo de preparação antes da marcha começar. Nesse momento de concentração, foi organizada uma roda de slam, a poesia falada – uma das principais expressões artísticas da cultura negra –, além de break dance, música e manifestações religiosas.

A poeta Meg participou da roda de slam. “Eu fui eu”, disse ela, “é isso que o slam faz. Pude colocar minha verdade nua e crua, minha pele”. Para Meg, a poesia permite dizer das  dores sentidas todos os dias. “Tenho os meus iguais aqui que também passam por isso. Então pra mim não é uma performance. É um grito. É a minha voz saindo junto com as vozes dos meus iguais”, afirmou.

O poetry slam, competição de poesia, nasceu em Chicago, nos anos 1980, com o propósito de devolver a poesia à cultura negra. O slam master, mestre da roda, organiza a competição. Os jurados são selecionados aleatoriamente, abrem-se as inscrições, os poetas recebem um número que será escolhido pela plateia, e então os artistas recitam suas poesias autorais e recebem uma nota de zero a dez.

Nem tudo é aceito no slam, explica o poeta Mano Deive. “Slam é poesia de rua, é poesia marginal. A gente tem denúncias a fazer. Colocar o slam na Marcha da Consciência Negra é importante porque os poetas têm mensagens que são também as mensagens de outras pessoas, e ganham visibilidade”, explica.

A marcha estava programada para o Dia da Consciência Negra, 20 de novembro, mas foi transferida para o domingo por causa da chuva.

Concentração da Marcha Negra, quando o poeta Mano Dave fazia seu slam no meio da roda. Foto: JP de Souza

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