“Não Corre, Menino!” espetáculo de Florianópolis que aborda violência policial a jovens negros esteve em cartaz no Rio de Janeiro

Peça do grupo Cia Nosso Olhar conta a história de menino vítima de bala perdida e tem episódio ocorrido na infância do diretor como uma das fontes de inspiração

ANDRÉ LUIS FARIAS

O espetáculo “Não Corre, Menino!” denuncia a violência contra crianças negras e periféricas no Brasil e faz uma crítica ao racismo e à violência desproporcional que é utilizada pela polícia nas periferias. A peça é uma produção do grupo teatral Cia Nosso Olhar, de Florianópolis, e esteve em cartaz no Rio de Janeiro, com uma temporada no Sesc Tijuca, de 5 a 29 de setembro.

“Desde que o Brasil existe, existe o genocídio com os corpos negros”, afirma Leandro Batz, dramaturgista e ator do espetáculo. O enredo conta a história real de Eduardo da Silva Santos, um menino de 11 anos vítima de bala perdida. O monólogo explora o racismo no Brasil, onde a cada 12 minutos uma pessoa negra é assassinada, e destaca a brutalidade enfrentada por crianças negras e periféricas.

Leandro compartilhou suas experiências junto com seu irmão e sua mãe quando criança. “Num sábado de manhã, fazíamos compras eu, meu irmão, minha mãe e uma tia. Precisávamos ligar pro meu pai em um telefone público, e eu e meu irmão corremos em direção ao telefone. Uma viatura da polícia militar apareceu no meio do calçadão e jogou o carro em direção ao meu irmão, que foi jogado com os braços abertos em cima do capô do carro tendo uma arma apontada para sua cabeça”, afirmou.

Os policiais justificaram a abordagem dizendo que estavam procurando uma pessoa que havia roubado uma loja, e o irmão de Leandro vestia um casaco amarelo, a mesma cor descrita como da roupa do ladrão.


“Para a polícia, menino preto correndo é bandido”, reflete Batz.


O nome do espetáculo também é relacionado a experiências de sua infância, quando sua mãe falava para ele e seu irmão a frase “Não corre, menino!”.

O ator explica a importância de se apresentar no Rio de Janeiro, em um local onde as pessoas se sentiram representadas assistindo suas realidades. “Nós fizemos apresentações na zona norte do Rio de Janeiro, e foi incrível, o teatro estava lotado, e é muito legal ver as pessoas se sentindo impactadas, se identificando, vendo a sua realidade ali. E principalmente por um final que dá esperança”, afirma.

Com exibições de quinta a domingo, o espetáculo contou com 16 apresentações e audiência de celebridades como o ator Nando Cunha, e a presidenta da Fundação Nacional da Arte (Funarte), Maria Marighella. “Não corre menino” surgiu durante a pandemia, com encontros para debate de temas raciais. A peça é uma realização do coletivo teatral independente Cia Nosso Olhar, que aborda pesquisa e desenvolvimento da arte negra e da negritude em Florianópolis.

Leandro Batz atuando em “Não Corre, Menino!”. Foto: Reprodução Instagram / @cianossoolhar

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