Quem salva o herói: um relato sobre a saúde mental dos professores da rede estadual de Santa Catarina

No estado com a 6ª maior economia do país, pesquisa mostra que professores da rede estadual de ensino têm saúde mental comprometida

FERNANDA ZWIRTES

“Sinto vontade de acabar com tudo”, afirma Maria Neves*. Em acompanhamento psiquiátrico há mais de dois anos, já tentou se adaptar com diferentes remédios durante o tratamento para a depressão, e tem uma consulta com o psiquiatra marcada para a próxima semana, na tentativa de se adequar a um novo medicamento. “Tenho uma ansiedade muito grande e penso que não tenho mais razão para viver, meu propósito tem sido somente meu trabalho”, desabafa. Maria trabalha como professora em uma escola estadual de Camboriú (SC), e dá aulas para 23 turmas diferentes durante a semana – aproximadamente 700 alunos do ensino fundamental.

Em meio ao planejamento das aulas, correção de avaliações e deslocamento entre uma escola e outra para lecionar, a presença dos remédios tarja preta, sessões de terapia e consultas com psiquiatras têm se tornado mais frequentes entre os professores. A causa disso é o aumento do adoecimento mental daqueles que educam diariamente os futuros cidadãos. Em Santa Catarina, o cenário não é diferente. “Ao longo dos meus 20 anos de carreira, tenho percebido que a saúde mental dos professores se torna cada vez mais deplorável”, afirma Sandra Bergamo, professora de artes da rede estadual de ensino em Camboriú. Ela foi diagnosticada com um quadro de ansiedade intensa e também faz acompanhamento com psicólogos e psiquiatras.

A experiência de Maria e Sandra não é individual. De acordo com a 3ª Pesquisa de Saúde do Trabalhador, de 2022, promovida pelo Sindicato de Trabalhadores em Educação de Santa Catarina (Sinte-SC), 65,7% dos 1,3 mil professores entrevistados declaram já ter passado por algum problema de saúde mental, como ansiedade, depressão, burnout, ideação suicida, etc. O índice é maior do que doenças físicas osteomusculares e digestivas, de 56,6% e 33,6%, respectivamente, que também advêm do cotidiano docente.

Apesar de ser um dos principais motivos de adoecimento da categoria, a saúde mental dos professores ainda não é uma pauta relevante na discussão de novas políticas públicas ou até mesmo programas de acolhimento. “O governo estadual não possui política de cuidado ou de pesquisa, para mensurar como está a saúde mental do professor em Santa Catarina”, afirma Katiane Weschenfelder, secretária de saúde do Sindicato dos Trabalhadores em Educação de Santa Catarina (Sinte-SC), ao ressaltar também a falta de dados sobre a situação. A reportagem tentou contato com a Secretaria Estadual de Educação, mas não obteve resposta quanto à solicitação de informações acerca de ações de acolhimento psicológico a docentes, bem como dados sobre afastamentos devido à saúde mental e criação de novas políticas públicas sobre a questão. O espaço permanece aberto para manifestações.

“Não tive nenhuma ajuda do estado, precisei buscar sozinha, através de médicos particulares, apoio psicológico”, relata Maria. A professora defende a necessidade da criação de algum suporte institucional para a saúde mental do trabalhador no magistério. “Dentro de uma escola, o adoecimento é ruim para todas as partes. Se você estiver mal, as crianças, os adolescentes que você ensina, vão levar para vida toda uma palavra ou atitude que você teve quando estava adoecida. É uma responsabilidade muito grande”, argumenta.

Foi após o início da pandemia de covid-19, em 2020, que a saúde mental dos professores começou a dar sinais de esgotamento crítico. De acordo com a pesquisa Saúde Mental dos Educadores 2022, realizada pela Associação Nova Escola em parceria com o Instituto Ame Sua Mente, o percentual de docentes no país que consideram sua saúde mental “ruim” ou “muito ruim” quase dobrou nos anos da pandemia. Passou de 13% em 2021 para 21% em 2022. “A situação da educação pública brasileira se agravou em um estado geral durante a pandemia”, defende Elenise Abreu, pesquisadora e participante do projeto de extensão Trabalho e Saúde Mental dos Professores Durante e Após a Pandemia da Covid, da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).

Elenise acompanhou rodas de conversa entre docentes da rede pública do Rio Grande do Sul sobre saúde mental. Segundo a pesquisadora, os professores relataram dificuldades maiores dos alunos no processo de alfabetização, que tinha sido realizado de forma precária no período. Além disso, houve dificuldades em lidar com a readaptação de adolescentes que passaram um grande período do seu desenvolvimento psicossocial em confinamento. Ela relata que a complexidade dessas situações exigiam muito mais do trabalho dos professores do que anteriormente. “Um ambiente de trabalho que não promove condições para desenvolver o ofício de maneira saudável muitas vezes gera adoecimento no profissional”, define a psicóloga.

Foi o que aconteceu com a professora Sandra. Ela começou a ter sintomas de distúrbios psicológicos durante a pandemia. “Um dia eu passei a mão no rosto e senti um caroço perto do meu ouvido, além de muita dor. Fui ao médico e ele não encontrou nenhuma causa física para esses sintomas. Depois de ter sido encaminhada ao psiquiatra, o diagnóstico foi de que todos esses problemas eram fruto da grande quantidade de stress que eu estava sentindo”. A docente relata que a dificuldade de compreender uma nova rotina, onde as aulas deveriam se adaptar ao ensino remoto, a falta de contato social com os colegas, a relação com os alunos e a carga horária foram fatores que contribuíram para o stress e a ansiedade nesse período.

Segundo Sandra e Maria, o aumento do stress também está relacionado com o volume de trabalho, que cresceu paralelo à carga de trabalho burocrático. Ele representa a quantidade de informações que os professores precisam inserir no sistema Professor Online, sobre as aulas e o desempenho dos alunos. Sandra afirma que as demandas sobre esses registros aumentaram depois desse período, e muitas vezes ela acabava ultrapassando seu horário de trabalho padrão, de 40 horas semanais, para atualizar o sistema. “Em vez de 8 horas por dia, eu acabava trabalhando 12, 14,  trabalhava às vezes de madrugada. Foi aí que eu adoeci”, relembra. 

Os registros no sistema são obrigatórios e requerem anotações de planejamento diário, semanal, quinzenal e anual. Sem eles, não há a liberação de outras abas para registrar a presença de alunos, por exemplo. Quem define as diretrizes de como essa documentação deve ser feita é a Gerência de Gestão e Educação Fundamental, da Diretoria de Ensino pertencente à Secretaria de Educação. 

O documento sofreu alterações em 2020, após a pandemia, com a Resolução 009/20 e Parecer 179/20 do Conselho Estadual de Educação, e a Portaria 924/20/SED, que definem que os planos de aula precisam ser disponibilizados e publicados na plataforma online. O excesso de burocracia nos registros faz com que o professor se sobrecarregue e prejudica não só o atendimento ao aluno, mas também a qualidade do seu cotidiano, analisa Evandro Acadrolli, presidente do Sinte-SC.“A burocracia é um descompasso com a prática, e isso acaba fazendo com que o professor sinta uma insatisfação muito grande”, afirma. 

Com o decorrer da pandemia, os indicadores de saúde mental dos docentes se agravaram em todo o país. No Sul, ainda segundo a pesquisa Saúde Mental dos Educadores 2022, o percentual foi o pior de todas as regiões: 24,2% consideraram sua saúde mental ruim ou péssima. Sobre os catarinenses, a 3º Pesquisa de Saúde do Trabalhador também concluiu que “a categoria dos professores(as) está numa tendência de agravamento do adoecimento, especialmente da saúde mental”. As causas para isso são multifatoriais – envolvem a satisfação com o trabalho e a qualidade de vida. Quem acompanhou a situação de perto, como Pricila Tobias, psicóloga da rede municipal de Vargeão, no oeste de Santa Catarina, pôde perceber o impacto que a adaptação à nova rotina e às maneiras de lecionar trouxeram aos professores durante a pandemia.  

Além das adversidades criadas pela nova forma de ensinar, Pricila reforça que o sono, a alimentação e a qualidade de vida no período foram profundamente prejudicados. Somado a isso, havia também o luto proveniente das diversas perdas ocasionadas pela pandemia. “Quando os professores retornaram às atividades presenciais, já somatizavam muito gravemente sintomas de ansiedade e depressão”, relata. Foi ao perceber a gravidade da situação que Pricila, em parceria com a Secretaria de Educação de Vargeão, chefiada pela secretária Carmen Raymundi, criaram o projeto Cuidando de quem cuida. “Chegamos à conclusão que não fazia sentido atender somente os alunos se os professores e a comunidade escolar também não estavam bem psicologicamente”, explica Pricila.

Imersão realizada em um dos encontros do projeto Cuidando de quem cuida, em Vargeão. Foto: Carmen Raymundi

Com sessões de escuta psicológica individuais e coletivas, somadas à práticas integrativas como yoga e fonoaudiologia, os profissionais da rede municipal de educação recebiam apoio do poder público para cuidar de sua saúde mental. No caso dos professores, durante um período de aula por semana, eles têm acesso gratuito às  atividades. “Nosso projeto não teve investimento, fomos capazes de promover essas atividades utilizando os próprios recursos e profissionais do município”, afirma Carmen Raymundi. 

O Cuidando de quem cuida também manteve parceria com o Laboratório de Psicologia Escolar e Educacional (LAPEE) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), promovendo a interação de estagiários do curso de Psicologia durante o período pandêmico. Exemplos como esse demonstram que políticas públicas para o apoio psicológico são viáveis para as contas públicas, além de promoverem a integração entre diversos programas de educação e saúde de diferentes instituições. Entretanto, ainda não existem a nível estadual, mesmo com a tentativa de expansão do projeto feita pela prefeitura de Vargeão, que comunicou a existência do projeto à Secretaria Estadual de Educação em 5 de junho de 2023. 

Uma reunião foi realizada virtualmente em 12 de dezembro de 2023 para a discussão de possíveis parcerias interinstitucionais. De acordo com a Secretaria Municipal de Educação de Vargeão, ainda não houve planejamento de ações concretas junto com a Secretaria Estadual de Educação. A mesma também não respondeu ao questionamento da reportagem. 

A situação pós-pandemia

No retorno ao regime presencial, a professora Sandra relata que imaginou uma melhora na situação, mas que isso não se refletiu na realidade. “Quando voltei à sala de aula, em 2022, comecei a ter crises de ansiedade, muitas vezes dentro da escola”. As consequências desse adoecimento foram novos afastamentos e reforço no tratamento psiquiátrico, que ela teve que novamente buscar sozinha.  Maria passou por uma situação similar. “Eu comecei a querer me isolar. Estava muito estressada em sala de aula e não conseguia mais manter o controle”, afirma. 

“Ninguém melhorou depois de 2020, nós voltamos a trabalhar no automático”, alega Analu Burigo Haushhan, que trabalha na Escola de Educação Básica Santos Dumont, em Blumenau, como assistente técnico-pedagógico e também é psicóloga. Ela orienta e faz parte da coordenação docente da escola, participando da assistência aos professores, e também acabou adoecendo. Segundo Analu, não há a quem recorrer quando um professor adoece mental e emocionalmente. “A gente não tem, nas escolas estaduais, um psicólogo para tratar da saúde mental dos professores em específico”, afirma. 

A presença de psicólogos e assistentes sociais na rede pública de ensino brasileira é obrigatória desde 2019, após a publicação da lei nº 13.935. Em Santa Catarina, somente 30% das escolas da rede pública têm psicólogos disponíveis, segundo o Censo Escolar do Instituto de Pesquisa Anísio Teixeira (Inep), de 2023. Apesar de não chegar nem à metade das escolas, ainda lidera o ranking em todo país, tendo contratado mais que o dobro de psicólogos desde 2022 – passou de 13%, em 2022, para 30%. O atendimento desses psicólogos é focado no processo de ensino-aprendizagem, conforme trata a redação da lei: ele oferece orientação aos professores, mas não uma política de cuidado específico com a saúde organizacional do trabalhador. 

O acúmulo emocional da pandemia, somado com as novas adaptações do trabalho e os impactos no desenvolvimento psicoemocional dos estudantes, tornaram a convivência escolar pós-pandêmica mais estressante. “Eu acho que foi uma sobrecarga, um período pós-traumático, onde tudo se potencializa”, define Katiane, ao relembrar os relatos de professores que a secretaria de saúde do Sinte-SC recebeu. “Como não teve um tratamento adequado nem com o aluno e nem para os professores, ocasionou o aumento de problemas psicológicos”, diz.

Ideação suicida

“Eu vou terminar de dar o conteúdo, esperar as provas finais, mas quando isso passar, eu vou me matar. Porque eu não aguento mais.”

Essas foram as palavras que uma professora disse à Katiane, buscando orientação da secretaria de saúde do Sinte-SC em um momento de grande angústia mental. A docente, que não teve seu nome revelado, estava em situação similar a de 27% dos participantes da 3ª Pesquisa de Saúde do Trabalhador, que relataram já terem possuído pensamentos suicidas. 

A ideação suicida parte, muitas vezes, de um quadro patológico de depressão, mas não somente. “Uma pessoa que possui ideação suicida concebe que o autoextermínio é uma solução para o grande sofrimento que ela está sentindo”, define Bruno Chapadeiro, psicólogo e especialista em saúde mental do trabalhador. A psicologia do trabalho define que a relação do indivíduo com o seu ofício é identitária – os cidadãos são definidos quase sempre pelo seu trabalho, e ele tem uma importância muito grande na saúde mental. Para além das condições físicas e emocionais de um ambiente de trabalho, a vivência da profissão expressa uma parte fundamental do contentamento do indivíduo com a vida, explica Bruno.

“Procurei o médico com irritação, desânimo, tudo isso. Estava tendo pensamentos problemáticos, eu não queria mais viver”, relembra Maria. A saída para esses casos onde a saúde mental chega ao extremo é, na grande maioria das vezes, a medicalização. Entretanto, isso não resolve totalmente o problema. “A medicação é só metade do tratamento. A outra metade nós entendemos como práticas integrativas e qualidade de vida, que vêm para auxiliar nesse processo”, argumenta a psicóloga escolar Pricila. Conceber uma qualidade de vida onde é possível manter a saúde física, social e um ambiente de trabalho decente é essencial para um psicológico sadio e também para a convivência escolar, complementa Bruno. 

Precarização do trabalho e saúde mental 

“O professor tem, em sua essência, uma paixão por ensinar. Mas só isso não é suficiente”, defende Katiane. O conceito de ter uma profissão por amor ao ofício é muitas vezes romantizado socialmente, e serve como uma cortina para a falta de valorização do trabalho. No caso do magistério, que lida profundamente com a formação psicossocial de indivíduos, pressupõe–se que os trabalhadores tenham uma “vocação”, uma espécie de instinto e cuidado afetuoso especial para ensinar outros seres humanos. “O trabalho do professor exige uma carga emocional muito grande. Você lida com seres humanos em desenvolvimento, eles precisam de muita atenção e cuidado. Nós absorvemos tudo”, relata a professora Sandra.

Entretanto, não é possível pagar as contas somente com o amor pela profissão. A paixão pelo ofício também não é capaz de sanar problemas decorrentes da insônia, falta de descanso e do esforço mecânico repetitivo. Além desses fatores, sobressaem-se ao afeto a preocupação com os preços no supermercado, a educação dos filhos, a progressão na carreira e vários outros fatores que envolvem, centralmente, uma única questão: a valorização do trabalho. A sala de aula cheia e a relação com os alunos muitas vezes podem ser estressantes, mas não é o principal expoente da preocupação de um professor, segundo Sandra. “O que mais adoece é a falta de valorização do nosso trabalho”, diz.

Professores estaduais estavam em greve de 23 de abril a 8 de maio deste ano, reivindicando melhores condições de trabalho. Foto: Fernanda Zwirtes

Um professor da rede estadual que possui licenciatura plena e leciona 40 horas por semana recebe hoje, no máximo, R$ 5 mil, segundo o site da Secretaria do Estado da Educação. Esse não é o valor inicial: na prática, a remuneração de R$ 3,6 mil recebe uma bonificação para chegar ao piso nacional, de R$ 4.580,57. Se considerada a inflação acumulada desde setembro de 2021, os R$ 5 mil correspondiam, em fevereiro de 2024, a somente R$ 4.333,67, ou seja, uma defasagem inflacionária de 16%.

Levando em conta o valor do imposto de renda e previdência social, a remuneração líquida é de R$ 4.686,89. Nesse valor, está descontado um vale-alimentação de R$ 396,00. Para se ter uma noção, o valor da cesta básica em abril deste ano, na capital Florianópolis, era de R$ 781,53. Para sustentar uma família, esse valor não basta. “Para ter um salário decente um professor precisa, às vezes, trabalhar em três escolas. São aulas de manhã, tarde e noite. Isso gera um stress absurdo”, argumenta a professora Sandra.

As limitações financeiras não aparecem só no final do mês, mas também durante toda a profissão. Atualmente, Santa Catarina é um dos estados que menos promove a progressão de carreira em todo o Brasil, equiparando-se com Sergipe. Isso significa que um professor efetivo da rede estadual, com licenciatura plena, não obtém aumento na remuneração durante todo o tempo em que leciona, segundo um levantamento feito pelo Sinte-SC em 2023. Quanto à capacitação, o profissional ganha um aumento de 8% para especialização, 10% se fizer mestrado e 25% doutorado. Com isso, torna-se difícil imaginar uma qualificação acadêmica, pois o aumento no salário não compensa frente ao tempo e disposição necessárias para conciliar estudo e trabalho por mais de 40 horas semanais.

Amplitude salarial dos professores do magistério em nível de licenciatura, por rede estadual, em 2022. Fonte: Profissão Docente (2023), elaborado pelo Sinte-SC.

Além da remuneração defasada pela inflação e a deficiência de progressão salarial, ainda há outra questão: 70,2% do quadro de professores da rede estadual de Santa Catarina, que soma 35,5 mil trabalhadores, estão em regime de admissão em caráter temporário (ACT). O estado possui o menor número de professores efetivos por volume de arrecadação tributária entre todas as unidades da federação. Só se iguala ao Espírito Santo, segundo uma estimativa realizada pelo Sinte-SC considerando a arrecadação tributária estadual informada pelo Conselho Nacional de Política Fazendária (Confaz) e os vínculos formais de trabalho na rede estadual, conforme registros do Relatório Anual de Informações Sociais (RAIS) de 2021. De acordo com a lei 16.861/2015, estes profissionais são contratados somente durante o ano letivo e estão vinculados ao regime geral de previdência social. 

Com um contingente cada vez maior de trabalhadores não efetivos, a fragilidade dos direitos desses servidores públicos os obriga a buscar mais de um emprego. “Alguns professores ACTs chegam a ter três escolas na sua carga horária, trabalhando todos os turnos”, relata Sandra. Segundo ela, se sentir amparado pelos direitos é crucial para o seu bem-estar psicoemocional. 

Imagine ser responsável por parte do desenvolvimento e aprendizado de dezenas de crianças e adolescentes todos os dias, com a obrigação de preparar aulas, corrigir provas e promover uma educação humanizada, valorizando a individualidade de cada aluno. Além dessas circunstâncias, adicione o fato de precisar trabalhar até nos finais de semana para dar conta do volume de trabalho. Some a isso um salário defasado, a falta de incentivo à capacitação, a preocupação com a aposentadoria e, no caso de professores ACTs, a garantia de um emprego e a compactação da tabela salarial e uma crescente desumanização da figura do professor pela sociedade. “Em Santa Catarina, o professor se sente muito desprestigiado no que diz respeito a sua valorização”, afirma o presidente do Sinte-SC. 

O que existe para cuidar? 

Quanto à criação de novas leis, está em tramitação o projeto de lei 0526/2023, na Assembleia Legislativa do Estado de Santa Catarina (Alesc),  que institui o programa Escola do Professor. Com a autoria do deputado Mauro de Nadal (MDB), ele é voltado para a promoção do bem-estar emocional, da saúde mental e psicológica dos professores da rede pública de ensino do estado. Entretanto, o projeto ainda não foi aprovado pelo legislativo, e sofreu supressão em um dos seus pontos fundamentais, o artigo 3º. 

Ele previa a criação de locais específicos para o atendimento psicológico dos professores estaduais em duas regiões. As duas unidades seriam criadas no meio-oeste ou oeste catarinense e outra no sul ou litoral norte do estado. A exclusão aconteceu após um pedido relatado por autoria da deputada Ana Campagnolo (PL), que alegou vício de inconstitucionalidade formal subjetiva e material. Na prática, isso significa que a lei iria interferir “diretamente no funcionamento de órgãos do Poder Executivo, ao criar atribuições para órgãos estaduais”, de acordo com o documento. 

Seguido da emenda supressiva, houve o voto da Comissão de Finanças e Tributação, que aprovou o projeto. O voto foi baseado no relatório de ofícios emitidos por diversas instituições de Santa Catarina – o que chama atenção é o parecer desfavorável da Secretaria de Educação, através de sua Diretoria de Ensino. A mesma alega que é contrária a execução do PL 0526/2023 porque as ações previstas nele, ou seja, o atendimento psicossocial a professores, já estão sendo implementados pelas Coordenadorias Regionais de Educação (CREs). 

A reportagem entrou em contato com todas as 36 CREs de Santa Catarina, questionando se existem realmente programas de atendimento psicossocial e acolhimento aos docentes na questão de sua saúde mental sendo implementados nas unidades. Destas, somente oito responderam até o fechamento da reportagem – as dos municípios de Tubarão, Campos Novos, Florianópolis, Rio do Sul, Brusque, Ituporanga, São Bento do Sul e Concórdia. Tubarão, Campos Novos, Brusque e Ituporanga relataram que não existem programas de atenção psicossocial, com foco na saúde organizacional, sendo oferecidos aos professores. Concórdia e São Bento do Sul dizem o mesmo, mas salientam que as coordenadorias oferecem formação continuada, a qual possui temáticas de capacitação, muitas vezes sobre a saúde mental, que orientam os professores. 

As CREs de Rio do Sul e Florianópolis alegam que o atendimento psicossocial aos docentes é feito através do Núcleo de Apoio e Prevenção à Violência nas Escolas (Nepre). Segundo as equipes do Nepre de Rio do Sul e Florianópolis, o setor possui psicólogos e assistentes sociais em sua composição, mas seu trabalho é de assessoria e atendimento em psicologia educacional.  Em situações emergenciais, existe o acolhimento, mas com objetivo principal de entender as necessidades em termos de apoio e prevenção, e não de acompanhamento psicológico e/ou psicossocial na saúde organizacional, de acordo com o Nepre da CRE Grande Florianópolis. Quando necessário, são orientados a buscar atendimento na rede pública. Após o acolhimento inicial nessas situações, os professores são encaminhados para as unidades de saúde ou para os Centros de Atenção Psicossocial (Caps). 

Maria, Sandra e Analu relatam que, quando precisaram de apoio, não contataram o sistema público de saúde, mas sim buscaram vias privadas para obter atendimento psicológico. Apesar de disponível, o sistema público muitas vezes tem o atendimento precário no que diz respeito à saúde mental. É preciso esperar por um atendimento com psicólogo ou psiquiatra, e as possibilidades de acompanhamento terapêutico são limitadas. 

Dessa forma, pagar uma consulta particular com psiquiatra e sessões de terapia com o psicólogo são mais viáveis porque suprem a demanda de urgência que esses casos possuem. Há a possibilidade de buscar um profissional pelo plano de saúde dos servidores públicos do estado, o SC Saúde, porém não são todos os que oferecem atendimento via convênio. “Tanto psiquiatra como psicólogo eu pago por fora, e se não fosse o atendimento deles, não sei como eu teria ficado”, afirma Analu. 

Além do PL 0526/2023, não tramita nenhuma outra medida que possa criar uma política pública de apoio à saúde mental dos docentes da rede pública estadual. Também não houve retorno da Secretaria Estadual de Educação sobre implementação de projetos similares ao Cuidando de quem cuida a nível estadual. Dessa maneira, um professor que adoece dentro da escola tem acesso à orientação dos psicólogos disponíveis na CRE da sua região, mas não acompanhamento ou acolhimento a médio e longo prazo. 

Quais são as saídas?

“Muita gente não quer procurar um psicólogo ou psiquiatra porque é ‘coisa de doido’, ‘de gente maluca’. Os professores têm, muitas vezes, vergonha de procurar ajuda”, explica a psicóloga Analu. O estigma sobre o adoecimento mental ainda é muito forte e impacta, diretamente, na forma como os trabalhadores buscam soluções. Sem a existência de programas de acolhimento e conversas francas sobre o tema, ele acaba esquecido – mas não vai embora. Se uma pessoa adoece, é latente que as consequências dessa condição respinguem em outras pessoas, em especial nos alunos. “A escola é como uma engrenagem. O que afeta um, afeta a todos”, define Maria. 

Apesar da saúde mental de cada pessoa ser uma questão individual, quando seu adoecimento envolve tantos fatores sociais, econômicos e estruturais, a cura é coletiva. “Se estou sentindo vergonha pela minha condição de adoecimento e vejo que meus semelhantes estão passando por algo parecido, eu me fortaleço e consigo receber apoio no coletivo”, exemplifica o psicólogo do trabalho Bruno. Além do fortalecimento da rede de afetos, a solução também é política – com a melhora das condições de trabalho e o amparo jurídico e psicológico pelas instituições devidas, o suporte é muito mais efetivo e o cuidado, ampliado. “É necessário que busquemos a transformação política, para discutir a organização desse processo de trabalho, que caminha cada vez mais para a precarização, sobrecarga e adoecimento do trabalhador”, afirma. 

Para sanar esses problemas, é preciso investimento orçamentário, defende Evandro Acadrolli, presidente do Sinte-SC. Os gastos públicos com educação em Santa Catarina, no primeiro bimestre de 2024, ainda estão abaixo do nível mínimo constitucional, que determina que 25% da arrecadação da Receita Líquida de Impostos (RLI) devem ser investidos em educação. De acordo com dados da Secretaria de Estado da Fazenda, ainda podem ser investidos R$ 470 milhões. Além disso, o estado está em superávit orçamentário de R$ 2,97 bilhões, segundo o resultado parcial do segundo bimestre de 2024, disponibilizado pelo Portal de Transparência de Santa Catarina.

Dentre as reivindicações da categoria, estavam a descompactação da tabela salarial e novos concursos públicos. Foto: Fernanda Zwirtes

Segundo a avaliação das propostas do governo estadual feita pelo SINTE-SC, nesse cenário, a implementação de políticas públicas para o cuidado da saúde mental de professores é viável para as contas públicas, assim como aconteceu com o projeto Cuidando de quem cuida. Além de políticas específicas para esse tema, o governo poderia ainda aplicar R$ 900 milhões à folha do magistério com recursos próprios, considerando as projeções da Lei Orçamentária Anual (LOA), sem descumprir o limite definido pela Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF). 

Se Santa Catarina deseja ser um estado onde as estatísticas positivas reflitam no cotidiano de seus cidadãos, agora e no futuro, é necessário que histórias como as de Maria e Sandra, e de todos os professores do ensino público, sejam ouvidas. O esgotamento da saúde mental e a precarização do trabalho, asseverados pela pandemia, são sequelas de uma falta de atenção latente há décadas na educação brasileira. Para que a escola não se torne adoecedora,  é preciso que os regulamentos e políticas públicas se atentem à realidade, e não à burocracia. Sem ações concretas, o adoecimento mental continuará a ser uma ferida aberta no ambiente escolar, impactando não só quem ensina e aprende hoje – mas amanhã, também. 

*Maria Neves é um nome fictício. A entrevistada não quis se identificar.
A Secretaria do Estado da Educação não retornou após a solicitação de informações e entrevistas. O espaço permanece aberto para o contraditório. 

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