Morte de leões-marinhos em praias de Florianópolis alerta sobre risco de gripe aviária
Doença com 52% de letalidade ainda não foi registrada em humanos no Brasil
IARA ROCHA
Foram encontrados oito leões-marinhos mortos em Florianópolis desde 10 de outubro, nas praias da Armação, Campeche, Moçambique e Pântano do Sul. A Associação R3 Animal, responsável pelo registro e enterro dos animais, afirmou que é um número grande de espécimes mortos. A suspeita é de que o aumento da mortalidade seja causado pela contaminação do vírus H5N1, a gripe aviária.
A Companhia Integrada de Desenvolvimento Agrícola de Santa Catarina (CIDASC) confirmou a primeira morte de leão-marinho por gripe aviária no estado em 18 de outubro, no município de Garopaba, a 48 km de Florianópolis. Desde então, municípios do litoral de Santa Catarina com ocorrência de mamíferos marinhos mortos estão em alerta sobre o risco de gripe aviária. Até o momento, o caso de Garopaba é o único confirmado no estado.
A gripe aviária, ou influenza aviária, foi encontrada pela primeira vez em animais no Brasil no dia 15 de maio de 2023, em aves silvestres. O país já contabilizou 138 casos. Em mamíferos, o primeiro caso foi registrado em 4 de outubro, no Rio Grande do Sul. Os sintomas em mamíferos podem incluir tremores, secreção no nariz, boca e olhos, dificuldade respiratória, convulsões ou paralisia. Em humanos, conjuntivite, febre, dor no corpo, dificuldade para respirar e outros sintomas de gripe.
O Rio Grande do Sul é o estado com maior número de mamíferos marinhos – leões e lobos marinhos – afetados por gripe aviária. Foram registrados 63 casos confirmados em laboratório, sendo a maioria, 50, encontrados mortos. Foram contabilizados mais 608 mamíferos aquáticos mortos, encontrados com sintomas e em condições semelhantes aos casos confirmados de influenza aviária.
Desde o primeiro registro do vírus H5N1, na Coreia do Sul, em 2003, 874 pessoas foram infectadas, e 458 morreram, totalizando 52% de taxa de letalidade, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS). No Brasil, a gripe aviária ainda não foi identificada em humanos. O Instituto Butantan, de São Paulo, está desenvolvendo uma vacina contra a gripe desde maio deste ano, após o primeiro caso em animais no país.
Carolina Damo, Coordenadora Estadual de Sanidade Avícola da CIDASC, explica que o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) determina o acionamento de três órgãos públicos estaduais para prevenção da influenza aviária – na área sanitária, ambiental e da saúde, – de acordo com a Nota Técnica nº 02/2023/DSA/SDA/MAPA. Em Santa Catarina, apenas a CIDASC, órgão de defesa sanitária, está realizando o atendimento dos casos.
A CIDASC não tem a prerrogativa legal de permitir o enterro ou realizar o manejo de pinípedes – leões e lobos marinhos – encontrados mortos. O registro e enterro da carcaça são feitos em colaboração com a Associação R3 Animal, que atua no Projeto de Monitoramento de Praias da Bacia de Santos (PMP-SC), iniciativa privada vinculada à Petrobras.
Emanuel Carvalho Ferreira, gerente operacional da PMP-SC, detalha o procedimento após o registro do animal. “Nós isolamos a área, comunicamos a CIDASC e entramos em contato com a Prefeitura, que a partir da Diretoria de Bem-estar Animal (DIBEA), redige a permissão para remoção do animal na praia”, descreve o oceanólogo.
Emanuel e Carolina relatam que alguns animais demoraram para ser enterrados pela espera do aval da Prefeitura. A Lei nº 12.305/10, que institui a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), afirma que todo município deve recolher animais mortos de maneira urgente após a denúncia. A política previne a disseminação de doenças entre animais e humanos.
Carolina afirma que quanto mais tempo o mamífero permanece na praia, mais a população está suscetível a contrair o vírus. “O vírus não tem uma disseminação forte, mas a principal forma de contaminação é o contato direto com as secreções do animal doente”, aponta. Um exemplo de fácil contaminação é o contato com cachorros e gatos que tocaram ou cheiraram o animal morto.
O vereador Afrânio Boppré (PSOL) protocolou uma indicação à Prefeitura de Florianópolis, de N.º 00850/2023, no dia 26. O documento pedia por medidas sanitárias de prevenção e conscientização urgentes referentes à disseminação de gripe aviária pelo contato com mamíferos. A indicação foi aprovada pela Câmara de Vereadores, mas, até o momento, a Prefeitura não publicou nenhuma nota ou divulgou em meio oficial sobre o risco do vírus H5N1 no município.

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