IA na produção audiovisual é tema de debate no 3º Festival de Cinema de Ficção Científica

Inteligência Artificial amplia possibilidades da criação artística, mas prática precisa ser regulamentada, defende debatedor

CAMILA BORGES

Os usos das imagens produzidas com Inteligência Artificial (IA) no cinema e nas redes sociais foram tema de debate no sábado (27) em mesa temática no 3º Festival Internacional de Cinema de Ficção Científica (SCI-Fi Floripa). O evento ocorreu no Centro Integrado de Cultura (CIC), em Florianópolis. A mesa sobre IA e ficção científica teve como debatedor Marcelo Barcelos, jornalista e pesquisador das áreas de Comunicação, Inteligência Artificial e Internet das Coisas (IoT), com mediação da professora de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Fabiana Piccinin.

O Sci-Fi Floripa Festival Internacional de Cinema de Ficção-Científica foi criado em 2016. A 3ª edição do projeto ocorreu entre 23 a 28 de julho e foi apoiada pela Fundação Catarinense de Cultura (FCC), a partir do Prêmio Catarinense de Cinema Edição Paulo Gustavo, com patrocínio do Governo do Estado de Santa Catarina. No evento, foram realizadas mostras de curtas-metragens nacionais e internacionais, oficinas de escrita, debates, palestras e sessões comentadas. 

Na mostra temática sobre IA e cinema, foi debatido que a ficção científica antecipa o futuro. Com os avanços da tecnologia, “o tempo entre a projeção da ficção científica e a concretização na vida real tem sido cada vez mais curto”, defendeu Barcelos.

Desde o início do século XX, produções cinematográficas tratam da relação entre humanos e robôs. O filme Metrópolis (1927), dirigido por Fritz Lang, já apresentava a relação de disputa entre homem, máquina e poder. “Esse imaginário exposto por Fritz Lang está presente hoje, quando pensamos nas Big Techs. Grande parte da sociedade produz, enquanto uma pequena parcela molda a maneira como nos comunicamos, nos entretemos e consumimos informações”, disse Barcelos.

O longa-metragem Her (2013), de Spike Jonze, apresenta o cotidiano de um ser humano que se apaixona por um sistema operacional. De acordo com o pesquisador, a produção reflete a contemporaneidade, pois o filme mostra a solitude e o vazio que a tecnologia impõe.


“Temos compartilhado cada vez mais nossas vidas com sistemas operacionais. O celular é uma extensão do nosso corpo”, relatou Barcelos.


Os usos da Inteligência Artificial na produção cinematográfica têm sido tema de debate. Em 2023, roteiristas de Hollywood ficaram cinco meses em greve a fim de reivindicar normas para o uso da IA no cinema. “Os diretores se deram conta de como a IA interfere no labor e de que maneira essa ferramenta afeta o sentido daquilo que entendemos como trabalho”, explicou o debatedor. 

A partir da greve, o Sindicato dos Atores de Hollywood (SAG-AFTRA) acordou que estúdios e produtoras deverão informar sempre que veicularem qualquer material produzido por IA e que a ferramenta não pode receber créditos de escritor. Além disso, a utilização de avatares de atores ou atrizes só é permitida a partir de consentimento. 

A graduanda de Letras da UFSC Laís Mazzuco, que estuda fotografia no campo da arte, diz que a IA possibilita a inserção de cenários e objetos que auxiliam na composição das fotos, mas percebe como o software tem um viés questionável do ponto de vista ético.


“Ao solicitar a criação de figuras femininas, geralmente, a IA devolve imagens erotizadas e, às vezes, pornográficas. Isso tem a ver com o histórico das buscas que outros usuários fizeram na ferramenta”, relatou Laís. 


Outro ponto questionado por usuários e especialistas é a violação de direitos autorais, uma vez que  as imagens criadas com IA no Photoshop vão para um banco de dados público. “Você não pode escolher não compartilhar”, explicou a estudante.

Para Barcelos, embora a IA possa auxiliar na produção audiovisual ao possibilitar a criação de mundos e de elementos inusitados, é necessário que haja regulamentação da ferramenta para que crimes como pornfakes, deepfakes ou violação de direitos autorais sejam combatidos.

A adulteração de vídeos, fenômeno chamado de deepfake, é cada vez mais comum com os avanços da tecnologia. A partir da multiplicação dos apps de Inteligência Artificial, imagens, vídeos e áudios são facilmente adulterados.

O apresentador do programa Caldeirão com Mion (TV Globo), Marcos Mion, foi vítima de uma deepfake em vídeo no qual um avatar tridimensional do apresentador vende a cura do autismo, o que não existe. “[O vídeo] Tem minha voz, vendendo a cura para o autismo. O que é de uma baixeza, porque luto pela conscientização do autismo”, disse Mion em entrevista ao Fantástico, da TV Globo.

Com o uso da mesma tecnologia, os pornfakes falsificam vídeos de caráter pornográfico, que, por muitas vezes, envolvem menores, vulnerabilizam mulheres e fetichizam pessoas trans. De acordo com a pesquisa Truth Quest, de 2024, da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o Brasil é o país que mais acredita em notícias falsas.


“O conteúdo audiovisual é considerado a forma narrativa de maior credibilidade. Fomos criados em uma cultura de que, se estamos vendo, então é verdade”, explicou a mediadora Fabiana Piccinin.


Segundo Barcelos, casos de racismo também são intensificados a partir do reconhecimento facial com IA, a exemplo do uso de câmeras para segurança pública no Brasil.  O pesquisador afirma que pessoas negras são acusadas de maneira injusta pela Inteligência Artificial, pois as tecnologias são treinadas a partir de bancos de dados que não representam a diversidade étnica da população brasileira. 

“Isso faz com que a ferramenta molde nossa forma de pensar e que os usuários devolvam concepções estereotipadas para os bancos de dados, em um processo de retroalimentação”, expôs Fabiana sobre o “colonialismo de dados”, que faz com as pessoas internalizem uma realidade construída pela IA.

Cenário da IA no Brasil

Está em debate, no Senado Federal, o Projeto de Lei (PL) 2338/2023, que pretende regulamentar os usos da IA no Brasil. O texto estabelece a necessidade de classificação do conteúdo, responsabilização, prestação de contas, revisão humana e criação de um órgão de fiscalização, com representantes de empresas reguladoras como Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel). 

Entre as críticas ao PL está o questionamento sobre qual critério será utilizado para elencar os riscos à sociedade, pois a classificação descrita não leva em consideração as especificidades de cada setor. 

Para Barcelos, o PL é extremamente conservador, pois não discute as problemáticas específicas dos usos da IA no país. “O Brasil é o país que, infelizmente, mais mata homossexuais no mundo e, ao mesmo tempo, é um dos locais em que mais se consome conteúdos relacionados a travestis. Isso não está sendo discutido no Projeto de Lei”.


“A distorção que o brasileiro tem da realidade é muito grave. Precisamos de uma política nacional para alfabetização midiática”, finaliza Barcelos.


Fabiana Piccinin e Marcelo Barcelos debatem sobre IA na produção audiovisual. Foto: Camila Borges

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