{"id":813,"date":"2024-03-29T00:09:12","date_gmt":"2024-03-29T03:09:12","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalofatual.ufsc.br\/?p=813"},"modified":"2024-10-15T00:32:07","modified_gmt":"2024-10-15T03:32:07","slug":"eja-as-historias-das-mulheres-que-ja-sao-muito-mas-que-buscam-ser-alguem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornalofatual.ufsc.br\/index.php\/2024\/03\/29\/eja-as-historias-das-mulheres-que-ja-sao-muito-mas-que-buscam-ser-alguem\/","title":{"rendered":"EJA: As hist\u00f3rias das mulheres que j\u00e1 s\u00e3o muito, mas que buscam \u201cser algu\u00e9m\u201d"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><em><strong>As vozes femininas dentro da Educa\u00e7\u00e3o de Jovens e Adultos em Florian\u00f3polis<\/strong><\/em><\/h4>\n\n\n\n<div style=\"height:32px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>FERNANDA ZWIRTES E NATHALY BITTENCOURT<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sobre o papel est\u00e1 o l\u00e1pis, que acaba de rascunhar algumas palavras. Guiado pela m\u00e3o de uma mulher, ele d\u00e1 vida a letras, s\u00edlabas, frases, textos que comp\u00f5em o in\u00edcio de uma hist\u00f3ria. Acima de tudo, est\u00e3o os olhos que, atentos a todo esse processo, se iluminam com a percep\u00e7\u00e3o de que em um simples peda\u00e7o de papel est\u00e1 escrito um caminho: a educa\u00e7\u00e3o. Em uma dessas hist\u00f3rias, essa viv\u00eancia&nbsp; \u00e9 transformada em poesia:&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote has-text-align-left\"><blockquote><p><strong><em>\u201cA gente cresce,<\/em><br><em>Quem me formou foi o EJA.<\/em><br><em>Sabiam dos meus sonhos sim,<\/em><br><em>Me disseram que o EJA os realizar\u00e1 enfim.<\/em><\/strong><br><strong><br><em>\u00c9 o EJA, sim.<\/em><\/strong><br><strong><br><em>N\u00e3o perca a esperan\u00e7a,<\/em><br><em>De voc\u00ea no EJA crescer.<\/em><\/strong><br><strong><br><em>Os mestres s\u00e3o de primeira,<\/em><br><em>Que fazem a gente viver.<\/em><\/strong><br><strong><br><em>\u00c9 o EJA, sim.\u201d<\/em><\/strong><\/p><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Assim declama Maria Moraes de Andrade, de 82 anos. O poema \u201c\u00c9 o EJA\u201d est\u00e1 publicado no seu primeiro livro, \u201cDa enxada pro l\u00e1pis\u201d, que escreveu sozinha ap\u00f3s se alfabetizar na Educa\u00e7\u00e3o de Jovens e Adultos (EJA) do N\u00facleo de Estudos da Terceira Idade (NETI) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Como Maria, mulheres dos quatro cantos do pa\u00eds decidem retomar os estudos e vivenciam a EJA no seu cotidiano, mesmo com as dificuldades impostas pelas diferentes formas de preconceito e viol\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No Brasil, 1.436.215 mulheres est\u00e3o matriculadas na EJA, o que corresponde a&nbsp; 51,76% do total de inscritos, segundo a Sinopse Estat\u00edstica da Educa\u00e7\u00e3o B\u00e1sica 2022, do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais An\u00edsio Teixeira (Inep).&nbsp; Apesar de as mulheres representarem 46,69% das matr\u00edculas no \u00e2mbito estadual, em Florian\u00f3polis, esse n\u00famero chega a 51,44%, de acordo com a Secretaria de Educa\u00e7\u00e3o de Santa Catarina. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Cada um desses valores representa uma vida, com quest\u00f5es que perpassam g\u00eanero, ra\u00e7a, sexualidade, e, em um contexto que a idade faz diferen\u00e7a no aprendizado, a faixa et\u00e1ria. As mulheres de at\u00e9 30 anos representam apenas 37,8% das matr\u00edculas da EJA a n\u00edvel nacional, de acordo com o \u00faltimo censo do Inep, de 2019.&nbsp; S\u00e3o as mulheres acima dos 30 anos que formam o maior contingente &#8211; 58,6% dos alunos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ad\u00e9lia Domingues Garcia da Silva \u00e9 parte dessa estat\u00edstica &#8211; dos seus 88 anos, viveu 71 sem decifrar as letras. S\u00f3 entrou em contato com o mundo das palavras quando, mudando-se para Florian\u00f3polis, iniciou os estudos no NETI. Em uma das salas do n\u00facleo, \u00e9 poss\u00edvel ler uma frase em destaque na parede: \u201cA pressa \u00e9 inimiga da perfei\u00e7\u00e3o\u201d. A partir desse princ\u00edpio, Ad\u00e9lia retomou seus estudos e h\u00e1 quatro anos est\u00e1 no processo de escrita da sua autobiografia. \u201cTodo mundo tem uma hist\u00f3ria e eu quero contar a minha\u201d, afirma sorridente.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A hist\u00f3ria de Ad\u00e9lia retrata, al\u00e9m de sua resili\u00eancia, uma realidade de direitos negados. Garantido na Constitui\u00e7\u00e3o Federal no artigo 6\u00b0, o acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o se classifica como um direito social e bem p\u00fablico. Entretanto, n\u00e3o \u00e9 o que Ad\u00e9lia vivenciou na sua inf\u00e2ncia e juventude. \u201cA gente trabalhava de uma forma que hoje seria considerado trabalho escravo. N\u00e3o \u00edamos \u00e0 escola e, quando crescemos, tivemos que cuidar dos filhos\u201d, relata.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Seria pelo menos cinco d\u00e9cadas depois, em 1990, que Ad\u00e9lia teria sua inf\u00e2ncia resguardada pela Justi\u00e7a, quando a Lei 8.069, do Estatuto da Crian\u00e7a e do Adolescente (ECA) foi aprovada e, dentre outras dilig\u00eancias, definiu no art. 60 a proibi\u00e7\u00e3o de qualquer trabalho a menores de 14 anos. Apesar do resguardo legal, dados de 2019 da Pesquisa Nacional por Amostra de Domic\u00edlios (Pnad) indicam que pelo menos 594 mil meninas ainda estavam em situa\u00e7\u00e3o de trabalho infantil no Brasil. Nestes casos, em jornadas de at\u00e9 36 horas semanais, estima-se que a evas\u00e3o escolar chegue a 40%, crescendo proporcionalmente, segundo o estudo <em>Trabalho Infantil e Adolescente: impacto econ\u00f4mico e os desafios para a inser\u00e7\u00e3o de jovens no mercado de trabalho no Cone Sul<\/em>.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As tarefas dom\u00e9sticas e cuidados com moradores de dentro ou fora de domic\u00edlio constituem-se como as principais raz\u00f5es que afastam&nbsp; jovens de 15 a 29 anos do estudo durante a inf\u00e2ncia, segundo levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE). A pesquisa de 2019 aponta que 94% das entrevistadas relataram ter interrompido sua educa\u00e7\u00e3o e trabalho por obriga\u00e7\u00f5es dom\u00e9sticas. Cuidado de filhos, da casa, de parentes. \u00c9 nesse contexto que a evas\u00e3o escolar e o analfabetismo ganham espa\u00e7o para fazer com que mulheres de distintas idades tenham que escolher entre o cuidado familiar e o estudo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Any Gabriele Silva, 24, entre uma li\u00e7\u00e3o e outra, tamb\u00e9m cuida de seu filho, Warlley Gabriel, de oito anos, que assim como ela, pegou gosto pelas aulas. \u201c\u00c9 uma experi\u00eancia nova, mas, ao mesmo tempo, \u00e9 bem legal para mim e para o meu filho, porque ele se sente abra\u00e7ado na EJA. Ele aprende junto comigo\u201d. Acordar cedo, trabalhar longas horas, buscar Warlley Gabriel na escola, voltar e cuidar da casa. A rotina de Any pode ser considerada uma tripla jornada &#8211; trabalho, estudo, servi\u00e7o dom\u00e9stico. \u201cEu chego em casa exausta, e penso muito em desistir, como j\u00e1 aconteceu algumas vezes, mas me formar \u00e9 meu sonho\u201d, relembra. Mesmo se quisesse, seu menino n\u00e3o deixaria. \u201cEle bate o p\u00e9 e fica triste quando tento ir para casa em vez da aula\u201d.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"793\" height=\"363\" src=\"https:\/\/jornalofatual.ufsc.br\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/imagem_2024-04-12_210904416.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-881\" style=\"width:840px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/jornalofatual.ufsc.br\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/imagem_2024-04-12_210904416.png 793w, https:\/\/jornalofatual.ufsc.br\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/imagem_2024-04-12_210904416-300x137.png 300w, https:\/\/jornalofatual.ufsc.br\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/imagem_2024-04-12_210904416-768x352.png 768w\" sizes=\"(max-width: 793px) 100vw, 793px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Any e Warlley na EJA. <em>Arte: Jovana Paula Ferro<\/em><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A palavra \u201cexaust\u00e3o\u201d \u00e9 citada v\u00e1rias vezes nessas hist\u00f3rias. Masi&nbsp; Rocha da Silva, auxiliar de limpeza de 49 anos, descreve a rotina que faz at\u00e9 chegar o momento da aula. \u201cAt\u00e9 o meio-dia, eu limpo 12 banheiros, entre os outros afazeres, e depois vou para a aula, tr\u00eas vezes na semana\u201d. Sua vida mudou quando foi realocada para trabalhar no NETI e recebeu incentivo das professoras que ministram a EJA no espa\u00e7o. \u201cElas falavam assim: vai estudar, menina, vai seguir teus estudos! Que essa vida de limpeza n\u00e3o \u00e9 pra ningu\u00e9m. E n\u00e3o \u00e9 mesmo. Foi de tanto ouvir isso, que voltei\u201d, relata Masi. Hoje, mesmo cansada, ela n\u00e3o falta um dia &#8211; sua disciplina favorita \u00e9 matem\u00e1tica.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O que conecta Maria, Ad\u00e9lia, Any e Masi, al\u00e9m da busca pelo conhecimento formal, \u00e9 a possibilidade que lhes foi dada de serem vistas pelo que s\u00e3o e n\u00e3o pelo diploma que ainda n\u00e3o possuem. Diego Pacheco, professor de hist\u00f3ria e coordenador do Centro de Educa\u00e7\u00e3o Continuada (CEC), defende que a EJA n\u00e3o deve ser concebida como um supletivo.\u201cEssa express\u00e3o parte da ideia de suplemento, que \u00e9 aquilo que falta a algu\u00e9m. Por princ\u00edpio, acreditamos que os estudantes da EJA n\u00e3o s\u00e3o incompletos. Eles s\u00e3o adultos completos em busca de escolariza\u00e7\u00e3o\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;Ao entrar na sala dos professores do CEC, l\u00ea-se uma frase escrita em destaque na lousa: \u201cLer, escrever, ouvir e falar todos os dias\u201d. Ela descreve, sucintamente, uma metodologia pedag\u00f3gica que foge do convencional. Em salas de aula pouco tradicionais, \u00e9 poss\u00edvel observar estantes de livros, pias, sof\u00e1s, televis\u00e3o, geladeira, com mesas e cadeiras distribu\u00eddas sem ordem. O ambiente que, primeiramente, parece ca\u00f3tico, funciona sem disciplinas concebidas em uma grade curricular comum &#8211; matem\u00e1tica, hist\u00f3ria, etc.&nbsp; L\u00e1, os professores n\u00e3o s\u00e3o o centro da aula: quem ocupa esse lugar s\u00e3o os estudantes. Por meio dos questionamentos problematizados pelos pr\u00f3prios alunos &#8211;&nbsp; e exercendo essas quatro a\u00e7\u00f5es \u00e9 que a aula \u00e9 conduzida, em todos os tr\u00eas segmentos da EJA.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os \u201csegmentos\u201d s\u00e3o as divis\u00f5es baseadas no conte\u00fado ensinado na EJA.&nbsp; A etapa de alfabetiza\u00e7\u00e3o e anos iniciais corresponde ao primeiro segmento, dos anos finais do ensino fundamental ao segundo e do ensino m\u00e9dio ao terceiro. Todos eles s\u00e3o atravessados por uma pedagogia estruturada pelo acolhimento dos estudantes. Foi assim, com uma educa\u00e7\u00e3o baseada no afeto e no di\u00e1logo, que, em Florian\u00f3polis, surgiu a ideia de entregar di\u00e1rios aos matriculados. Com o intuito de oferecer um lugar seguro, eles podem escrever sobre sua rotina, frustra\u00e7\u00f5es e felicidades.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Algumas alunas que passaram pela EJA Centro II deixaram seus di\u00e1rios para tr\u00e1s. Em alguns trechos, \u00e9 poss\u00edvel perceber as viv\u00eancias femininas que perpassam sua jornada pela educa\u00e7\u00e3o:&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote has-text-align-left\"><blockquote><p><em><strong>\u201cVoc\u00ea deve estar se perguntando o que eu fa\u00e7o por aqui. Pois bem, eu te respondo. Assim como todos que est\u00e3o por aqui, que tem sonhos, necessidades e obriga\u00e7\u00f5es, eu tamb\u00e9m tenho, mas o meu \u00e9 um pouco diferente. Diferente, por qu\u00ea? Bom, eu n\u00e3o pude estudar quando era mais nova. Eu tinha que cuidar dos meus irm\u00e3os para que minha m\u00e3e pudesse trabalhar [&#8230;]\u201d<\/strong><\/em><br><br><strong><em>\u201cUltimamente, eu estou feliz, porque vou ser mam\u00e3e e n\u00e3o vejo a hora de ver o rosto do Harzel ou da Sophia\u201d<\/em><br><br><em>\u201cMeu padrasto n\u00e3o gosta que minha m\u00e3e tenha amigos ou trabalhe em uma \u00e1rea que tenha homens, etc\u2026 E isso \u00e9 muito chato\u201d<\/em><br><br><em>\u201cHoje, voltei para escola novamente. Estou muito feliz de ter voltado. Agora tenho que me esfor\u00e7ar para terminar antes de ganhar o beb\u00ea\u201d<\/em><\/strong><\/p><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>A doc\u00eancia feminina e o desmonte da EJA<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dentro das salas de aula, a presen\u00e7a expressiva das mulheres n\u00e3o est\u00e1 somente nas cadeiras, mas tamb\u00e9m nas lousas. As aulas s\u00e3o conduzidas por 2.121 mulheres que comp\u00f5em a doc\u00eancia da EJA no estado, representando 60,44% da totalidade dos educadores do setor, e 56,5% em Florian\u00f3polis, segundo dados do Inep de 2022. Rosana Fernandes, professora de l\u00edngua portuguesa, leciona h\u00e1 quatro d\u00e9cadas e v\u00ea na EJA uma possibilidade de resgate da autoestima. Aposentada h\u00e1 11 anos, ela participa anualmente do processo seletivo para trabalhar no projeto. \u201cO acolhimento fortalece as mulheres, \u00e9 importante lembrar que nada est\u00e1 perdido\u201d, defende.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Apesar do amor manifestado pelos profissionais, o desmonte do setor dificulta a ades\u00e3o das camadas populares. De 2012 a 2022, a modalidade perdeu 97,36% de sua verba, de acordo com o dossi\u00ea <em>Em busca de sa\u00eddas para a crise das pol\u00edticas p\u00fablicas de EJA<\/em>, uma iniciativa do Movimento Pela Base e realiza\u00e7\u00e3o da <a href=\"https:\/\/acaoeducativa.org.br\/\">A\u00e7\u00e3o Educativa<\/a>, Cenpec e Instituto Paulo Freire.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img decoding=\"async\" width=\"779\" height=\"399\" src=\"https:\/\/jornalofatual.ufsc.br\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/imagem_2024-04-12_210947747.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-882\" style=\"width:840px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/jornalofatual.ufsc.br\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/imagem_2024-04-12_210947747.png 779w, https:\/\/jornalofatual.ufsc.br\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/imagem_2024-04-12_210947747-300x154.png 300w, https:\/\/jornalofatual.ufsc.br\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/imagem_2024-04-12_210947747-768x393.png 768w\" sizes=\"(max-width: 779px) 100vw, 779px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em>Fonte: Sistema Integrado de Planejamento e Or\u00e7amento (SIOP)<\/em><br><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A verba destinada a cada aluno, pelo Governo Federal, tamb\u00e9m \u00e9 diferente quando se fala na EJA. O valor anual por estudante, em Santa Catarina, \u00e9 de&nbsp; R$4.739,86, 64% menor do que o valor anual por estudante do Ensino M\u00e9dio urbano, R$7.406,04, segundo dados de 2022 sobre o Fundo de Manuten\u00e7\u00e3o e Desenvolvimento da Educa\u00e7\u00e3o B\u00e1sica e de Valoriza\u00e7\u00e3o dos Profissionais da Educa\u00e7\u00e3o (Fundeb). Com essa disparidade de or\u00e7amento, pol\u00edticas de acolhimento, como as que ajudam Any a levar Warlley para a aula, ou auxiliam pessoas idosas como Ad\u00e9lia com o preparo pedag\u00f3gico correto, s\u00e3o verticalmente afetadas ou, muitas vezes, deixam de existir.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sem investimento, a educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica \u00e9 incapaz de contemplar todas as sociabilidades e viv\u00eancias que a atravessam &#8211; como \u00e9 o caso das diversas particularidades que permeiam a vida das mulheres que frequentam a EJA. N\u00e3o h\u00e1 educa\u00e7\u00e3o com acolhimento se, acima de tudo, n\u00e3o existe uma estrutura material para sua exist\u00eancia.&nbsp; Sob essa \u00f3tica, Diego Pacheco refor\u00e7a a import\u00e2ncia do voc\u00e1bulo: o nome correto \u00e9<em> educa\u00e7\u00e3o<\/em> e n\u00e3o <em>ensino<\/em> de jovens e adultos. Enquanto o <em>ensino<\/em> prev\u00ea somente um m\u00e9todo de resgate de onde o estudante parou, conteudista, a <em>educa\u00e7\u00e3o<\/em> possui uma perspectiva pedag\u00f3gica alicer\u00e7ada na transforma\u00e7\u00e3o e reconhecimento das dificuldades e bagagens de cada um. \u201c\u00c9 <em>a<\/em> EJA, n\u00e3o <em>o<\/em> EJA. Parece pouca coisa, mas s\u00f3 no g\u00eanero&nbsp; percebe-se uma diferen\u00e7a brutal em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 vis\u00e3o de educa\u00e7\u00e3o. Para n\u00f3s, a EJA de Florian\u00f3polis \u00e9 uma mulher\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 tentando contornar os obst\u00e1culos que a vida imp\u00f5e a essas mulheres que o l\u00e1pis continua sendo guiado, revelando as diversas hist\u00f3rias que entoam as vozes femininas da EJA. O que \u00e9 escrito n\u00e3o \u00e9 fic\u00e7\u00e3o ou romance, \u00e9 mat\u00e9ria bruta da vida real, feita de sonhos. Rosana anseia por&nbsp; uma educa\u00e7\u00e3o mais humana e amorosa. Ad\u00e9lia quer terminar sua autobiografia, que escreveu \u00e0 m\u00e3o em seu caderninho, e est\u00e1 quase pronta. Any deseja continuar os estudos e se formar em Direito. Masi, que sempre adorou a \u00e1rea da sa\u00fade, pretende fazer um curso de enfermagem quando concluir a EJA.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em um dos di\u00e1rios, um relato resume, enfim:&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote has-text-align-left\"><blockquote><p><strong><em>\u201cMeu objetivo \u00e9 ser algu\u00e9m na vida e terminar meus estudos para fazer&nbsp;faculdade de medicina<\/em><\/strong>.&#8221;<br><strong><br><em>\u201cVoc\u00ea j\u00e1 \u00e9 algu\u00e9m!\u201d, responde a professora.<\/em><\/strong><\/p><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img decoding=\"async\" width=\"813\" height=\"608\" src=\"https:\/\/jornalofatual.ufsc.br\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/imagem_2024-04-12_211027695.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-883\" style=\"width:840px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/jornalofatual.ufsc.br\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/imagem_2024-04-12_211027695.png 813w, https:\/\/jornalofatual.ufsc.br\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/imagem_2024-04-12_211027695-300x224.png 300w, https:\/\/jornalofatual.ufsc.br\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/imagem_2024-04-12_211027695-768x574.png 768w\" sizes=\"(max-width: 813px) 100vw, 813px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Estudantes do segundo segmento da EJA confeccionando cartazes durante aula. <em>Foto: Nathaly Bittencourt<\/em><br><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em><strong>Reportagem produzida para a disciplina de Linguagem e Texto Jornal\u00edstico III, do curso de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).<\/strong><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As vozes femininas dentro da Educa\u00e7\u00e3o de Jovens e Adultos em Florian\u00f3polis FERNANDA ZWIRTES E NATHALY BITTENCOURT Sobre o papel est\u00e1 o l\u00e1pis, que acaba de rascunhar algumas palavras. Guiado pela m\u00e3o de uma mulher, ele d\u00e1 vida a letras, s\u00edlabas, frases, textos que comp\u00f5em o in\u00edcio de uma hist\u00f3ria. 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