{"id":317,"date":"2023-04-27T09:58:00","date_gmt":"2023-04-27T12:58:00","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalofatual.ufsc.br\/?p=317"},"modified":"2024-04-12T21:28:02","modified_gmt":"2024-04-13T00:28:02","slug":"a-profissao-mais-antiga-do-mundo-penetra-o-seculo-xxi","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornalofatual.ufsc.br\/index.php\/2023\/04\/27\/a-profissao-mais-antiga-do-mundo-penetra-o-seculo-xxi\/","title":{"rendered":"A \u201cprofiss\u00e3o mais antiga do mundo\u201d penetra o s\u00e9culo XXI"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"wp-block-heading has-text-align-left\"><em><strong>Plataformas digitais mudam as rela\u00e7\u00f5es de trabalho no mercado de sexo. Trabalhadoras ainda lutam por regulamenta\u00e7\u00e3o no Brasil<\/strong><\/em><\/h4>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left wp-block-paragraph\"><br><strong>\u00cdSIS LEITES, J\u00c9SSICA SCHIMTT E VIT\u00d3RYA NAVEGANTES<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Prostituta, profissional do sexo, garota de programa, meretriz, messalina, mulher da vida, puta, rapariga, trabalhadora sexual, <em>camgirl <\/em>(produtora de conte\u00fado). S\u00e3o diferentes as retrata\u00e7\u00f5es do trabalho sexual ao longo dos anos e em diferentes classes sociais. Hoje, essa profiss\u00e3o assume uma posi\u00e7\u00e3o semi-legal na sociedade. Esse status se d\u00e1 principalmente pelos estigmas impostos sobre as profissionais do sexo e dificuldades de atuar na legalidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Apesar de o Minist\u00e9rio do Trabalho ter reconhecido a pr\u00e1tica como trabalho em 2002, e inserido a express\u00e3o \u201cprofissional do sexo\u201d na Classifica\u00e7\u00e3o Brasileira das Ocupa\u00e7\u00f5es (CBO), existem diversas contradi\u00e7\u00f5es legais. A profiss\u00e3o ainda depende de regulamenta\u00e7\u00e3o pelo Congresso Nacional. Enquanto isso, o governo n\u00e3o tem como garantir os direitos trabalhistas das profissionais do sexo nem como fiscalizar locais de trabalho. Houve projetos de leis que propuseram a regulamenta\u00e7\u00e3o do trabalho sexual, como o PL 4211\/2012, conhecido por PL Gabriela Leite, em 2012, que foi engavetado. O projeto foi batizado em homenagem \u00e0 luta de Gabriela Leite, trabalhadora sexual na d\u00e9cada de 70.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A oficializa\u00e7\u00e3o pela CBO, entretanto, traz algumas melhorias para as condi\u00e7\u00f5es&nbsp; das trabalhadoras sexuais. Elas podem contribuir com a previd\u00eancia social, receber aposentadorias, aux\u00edlio-doen\u00e7a e qualquer outro direito trabalhista comum a outras profiss\u00f5es. Para Frida Carla, advogada criminalista que \u00e9 tamb\u00e9m profissional do sexo e ativista, os direitos das trabalhadoras sexuais s\u00e3o os de todas as mulheres. \u201cN\u00e3o existem direitos s\u00f3 das trabalhadoras sexuais. Na verdade,&nbsp; se parar para pensar, n\u00e3o existe nenhum direito espec\u00edfico.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nesse cen\u00e1rio de incertezas, com dificuldades em encontrar condi\u00e7\u00f5es adequadas de trabalho, lidar com press\u00f5es de clientes e patr\u00f5es, manter a sa\u00fade sexual em dia e receber o que se \u00e9 prometido, o cotidiano das profissionais do sexo possui diversos impecilhos para o acesso aos seus direitos, que v\u00e3o al\u00e9m das limita\u00e7\u00f5es legais.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong>\u201cO fato \u00e9 que, sendo ou n\u00e3o a profiss\u00e3o mais antiga do mundo, a prostitui\u00e7\u00e3o est\u00e1 posta, e um n\u00famero incrivelmente grande de pessoas a exerce \u2014 em sua maioria, mulheres \u2013 cisg\u00eaneras e transg\u00eaneras \u2013 e em sua maioria, mulheres pobres\u201d.<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">Monique Prada na sua coluna<em> \u201cDireitos humanos para humanas direitas &#8211; nada de novo no front\u201d<\/em>, publicada no portal M\u00eddia Ninja.<\/h5>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Da boate aos sites<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cEu tava me fodendo ganhando R$ 1,2 mil por m\u00eas em um trabalho que odiava. Larguei meu trabalho e tr\u00eas dias depois estava em Balne\u00e1rio Cambori\u00fa.\u201d \u00c9 assim que Bruna, 24 anos, relata como foi o come\u00e7o da sua carreira como trabalhadora sexual. Segundo ela, o primeiro contato com a ag\u00eancia de prostitui\u00e7\u00e3o pareceu um sonho, que pouco tempo depois tornou-se um pesadelo. \u201cEra tudo perfeito, maravilhoso. E a\u00ed pensei: \u00e9 essa a vida que quero pra mim.\u201d Quando chegou na ag\u00eancia, por\u00e9m, tudo era diferente do prometido. \u201cEu tinha que ficar o dia inteiro dispon\u00edvel e ele ainda ficava com 40% do valor que eu cobrava dos clientes.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Bruna tem um padr\u00e3o de vida elevado com o trabalho sexual como fonte de renda \u00fanica. \u201cMeu estilo de vida hoje em dia \u00e9 alto. Meu aluguel \u00e9 caro, minhas contas mensais s\u00e3o caras e tamb\u00e9m meus <em>looks. <\/em>Meu amigo sempre fala: amiga, voc\u00ea \u00e9 muito mimada, s\u00f3 que \u00e9 voc\u00ea que se mima.\u201d Mas a realidade de Bruna nem sempre foi assim. Ap\u00f3s sair da ag\u00eancia, com a ajuda de uma vizinha e de amigos, foi trabalhar em uma boate no centro de Florian\u00f3polis, a Bokarra. L\u00e1, come\u00e7ou a ter problemas com drogas il\u00edcitas. \u201cComecei a usar muita coca\u00edna, porque \u00e0 noite, principalmente em boates, os clientes e as meninas usam para ficar acordadas e lidar com os problemas.\u201d E acrescenta: \u201cEu me sentia muito fora do padr\u00e3o [das trabalhadoras da boate], e emagreci muito. Em dois meses, perdi 15 quilos de uma forma nada saud\u00e1vel. Fiquei doente, super mal\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O uso de drogas n\u00e3o ficou restrito ao ambiente de trabalho, tornou-se um h\u00e1bito do dia a dia. \u201cAl\u00e9m de cheirar no trabalho, eu cheirava no rol\u00ea. Comecei a cheirar tr\u00eas, quatro dias na semana, \u00e0s vezes at\u00e9 cinco. Precisei pegar na minha m\u00e3o e falar \u2018gata, isso n\u00e3o \u00e9 vida\u2019.\u201d Quando a boate fechou por conta da pandemia, Bruna investiu no trabalho online, como <em>camgirl,<\/em> e foi um momento dif\u00edcil. \u201cTinha que me sujeitar a muita coisa porque precisava de grana. Passava a noite toda por um valor que eu cobraria por duas horas na boate.\u201d A vida s\u00f3 melhorou depois que ingressou em outras plataformas de servi\u00e7os sexuais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma vida confort\u00e1vel n\u00e3o \u00e9 a realidade das pessoas quando iniciam no sexo pago. A advogada Frida Carla, por exemplo, conta que entrou por necessidade. \u201cEu tinha 18 anos, um filho com um ano de idade, morava em S\u00e3o Paulo e n\u00e3o tinha o ensino m\u00e9dio completo. O que me apareceu foi o trabalho sexual.\u201d Ela acredita que \u00e9 uma profiss\u00e3o como qualquer outra.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-4-3 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe title=\"Relato - Frida Carla\" width=\"640\" height=\"480\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/9_fU8Cqc4fc?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe>\n<\/div><figcaption class=\"wp-element-caption\">\u00c1udio de Frida Carla em entrevista a esta reportagem.<em> Ilustra\u00e7\u00e3o: Giuliano Bianco<\/em><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Diferente de Frida Carla, Andressa entrou no trabalho sexual por outro motivo: marcar encontros casuais. Ela utiliza um portal de servi\u00e7os para colocar an\u00fancios e, de quebra, ganhar algum dinheiro. \u201cN\u00e3o busquei plataforma de relacionamentos, procurei por acompanhantes de luxo, porque n\u00e3o estou buscando um relacionamento\u201d. E acrescenta: \u201cEu me cadastrei na plataforma pois estou estudando para um concurso e fa\u00e7o faculdade\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O uso de aplicativos e portais para venda de servi\u00e7os sexuais tornou-se comum nos \u00faltimos anos. Segundo dados da CNN Brasil, o <em>OnlyFans<\/em> possui cerca de 150 milh\u00f5es de usu\u00e1rios e mais de 5 milh\u00f5es de criadores de conte\u00fado. J\u00e1 o portal usado por Bruna e Andressa possui mais de 25 mil an\u00fancios, segundo dados da pr\u00f3pria empresa. Elas escolheram a plataforma por consider\u00e1-la mais segura. \u201cQuando voc\u00ea faz uma chamada ou uma reclama\u00e7\u00e3o, fala diretamente com pessoas, n\u00e3o com rob\u00f4s\u201d, afirma Andressa. Bruna, que encontrou a plataforma atrav\u00e9s de uma amiga, conta que tinha preconceito com sites, n\u00e3o os achava&nbsp; seguros. \u201cMas pensei: eu preciso, ent\u00e3o vou fazer.\u201d Ela est\u00e1 h\u00e1 quase tr\u00eas anos na plataforma. \u201cMe encontrei no site, \u00e9 bem melhor que a boate. L\u00e1 era muito puxado, abria \u00e0s nove da noite e fechava \u00e0s cinco da manh\u00e3.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As rela\u00e7\u00f5es de trabalho no contexto relatado por Bruna mudaram completamente com as op\u00e7\u00f5es digitais. Apesar de n\u00e3o ter as press\u00f5es impostas por patr\u00f5es, hor\u00e1rios r\u00edgidos de entrada e sal\u00e1rios menores, a responsabilidade da trabalhadora sexual em plataformas \u00e9 maior. Bruna desenvolveu uma s\u00e9rie de requisitos para aceitar clientes e garantir sua pr\u00f3pria seguran\u00e7a, como pedir a localiza\u00e7\u00e3o da pessoa e ver se \u00e9 seguro. \u201cConsigo perceber se est\u00e3o com inten\u00e7\u00f5es ruins.\u201d O risco, mesmo assim, existe, porque n\u00e3o h\u00e1 fiscaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-4-3 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe title=\"Relato - Bruna\" width=\"640\" height=\"480\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/ZEaUj7-iSO8?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe>\n<\/div><figcaption class=\"wp-element-caption\">\u00c1udio de Bruna em entrevista a esta reportagem.<em> Ilustra\u00e7\u00e3o: Giuliano Bianco<\/em><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<div style=\"height:10px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>\u00c0 pr\u00f3pria sorte<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sem preocupa\u00e7\u00e3o por parte do&nbsp; Poder Legislativo, as trabalhadoras sexuais continuam em situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade e encontram aux\u00edlio em associa\u00e7\u00f5es independentes, como a Associa\u00e7\u00e3o Nacional de Profissionais do Sexo (Anprosex). Em Florian\u00f3polis, a Estrela Guia faz o papel de auxiliar essas pessoas. Patr\u00edcia Alves, presidenta da organiza\u00e7\u00e3o, afirma que possui projetos para profissionais do sexo, cis e trans, em situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade. \u201cElas t\u00eam que preencher um question\u00e1rio elaborado por n\u00f3s para construir dados relacionados \u00e0 etnia, classe social e g\u00eanero, com diversos marcadores sociais\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Enquanto a regulamenta\u00e7\u00e3o da profiss\u00e3o n\u00e3o sai da gaveta, personagens como Bruna Surfistinha, Christiane F e Maria Madalena continuam sendo julgadas, perseguidas, mortas e sem seus direitos garantidos. Famosas ou an\u00f4nimas, dependem umas das outras.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote has-text-align-left\"><blockquote><p>Os nomes Bruna e Andressa s\u00e3o fict\u00edcios para preservar a identidade das fontes.<\/p><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em style=\"box-sizing: border-box; color: rgb(64, 64, 64); font-family: Poppins, &quot;Work Sans&quot;, &quot;Helvetica Neue&quot;, helvetica, arial, sans-serif; white-space-collapse: collapse;\"><strong style=\"box-sizing: border-box;\">Reportagem produzida para a 1\u00b0 Semana de Produ\u00e7\u00e3o Jornal\u00edstica do curso de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).<\/strong><\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><em>Link para mat\u00e9ria original: <\/em><\/strong><em><a href=\"https:\/\/spjjorufsc.wixsite.com\/especial-trabalho-pr\/post\/a-profiss\u00e3o-mais-antiga-do-mundo-penetra-o-s\u00e9culo-xxi\"><mark style=\"background-color:rgba(0, 0, 0, 0)\" class=\"has-inline-color has-vivid-cyan-blue-color\">https:\/\/spjjorufsc.wixsite.com\/especial-trabalho-pr\/post\/a-profiss\u00e3o-mais-antiga-do-mundo-penetra-o-s\u00e9culo-xxi<\/mark><\/a><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Plataformas digitais mudam as rela\u00e7\u00f5es de trabalho no mercado de sexo. 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