{"id":1937,"date":"2024-08-28T11:55:00","date_gmt":"2024-08-28T14:55:00","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalofatual.ufsc.br\/?p=1937"},"modified":"2024-10-19T18:08:44","modified_gmt":"2024-10-19T21:08:44","slug":"quem-salva-o-heroi-um-relato-sobre-a-saude-mental-dos-professores-da-rede-estadual-de-santa-catarina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornalofatual.ufsc.br\/index.php\/2024\/08\/28\/quem-salva-o-heroi-um-relato-sobre-a-saude-mental-dos-professores-da-rede-estadual-de-santa-catarina\/","title":{"rendered":"Quem salva o her\u00f3i: um relato sobre a sa\u00fade mental dos professores da rede estadual de Santa Catarina"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>No estado com a 6\u00aa maior economia do pa\u00eds, pesquisa mostra que professores da rede estadual de ensino t\u00eam sa\u00fade mental comprometida<\/em><\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:32px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>FERNANDA ZWIRTES<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cSinto vontade de acabar com tudo\u201d, afirma Maria Neves*. Em acompanhamento psiqui\u00e1trico h\u00e1 mais de dois anos, j\u00e1 tentou se adaptar com diferentes rem\u00e9dios durante o tratamento para a depress\u00e3o, e tem uma consulta com o psiquiatra marcada para a pr\u00f3xima semana, na tentativa de se adequar a um novo medicamento. \u201cTenho uma ansiedade muito grande e penso que n\u00e3o tenho mais raz\u00e3o para viver, meu prop\u00f3sito tem sido somente meu trabalho\u201d, desabafa. Maria trabalha como professora em uma escola estadual de Cambori\u00fa (SC), e d\u00e1 aulas para 23 turmas diferentes durante a semana &#8211; aproximadamente 700 alunos do ensino fundamental.<br><br>Em meio ao planejamento das aulas, corre\u00e7\u00e3o de avalia\u00e7\u00f5es e deslocamento entre uma escola e outra para lecionar, a presen\u00e7a dos rem\u00e9dios tarja preta, sess\u00f5es de terapia e consultas com psiquiatras t\u00eam se tornado mais frequentes entre os professores. A causa disso \u00e9 o aumento do adoecimento mental daqueles que educam diariamente os futuros cidad\u00e3os. Em Santa Catarina, o cen\u00e1rio n\u00e3o \u00e9 diferente. \u201cAo longo dos meus 20 anos de carreira, tenho percebido que a sa\u00fade mental dos professores se torna cada vez mais deplor\u00e1vel\u201d, afirma Sandra Bergamo, professora de artes da rede estadual de ensino em Cambori\u00fa. Ela foi diagnosticada com um quadro de ansiedade intensa e tamb\u00e9m faz acompanhamento com psic\u00f3logos e psiquiatras.<br><br>A experi\u00eancia de Maria e Sandra n\u00e3o \u00e9 individual. De acordo com a 3\u00aa Pesquisa de Sa\u00fade do Trabalhador, de 2022, promovida pelo Sindicato de Trabalhadores em Educa\u00e7\u00e3o de Santa Catarina (Sinte-SC), 65,7% dos 1,3 mil professores entrevistados declaram j\u00e1 ter passado por algum problema de sa\u00fade mental, como ansiedade, depress\u00e3o, burnout, idea\u00e7\u00e3o suicida, etc. O \u00edndice \u00e9 maior do que doen\u00e7as f\u00edsicas osteomusculares e digestivas, de 56,6% e 33,6%, respectivamente, que tamb\u00e9m adv\u00eam do cotidiano docente.<br><br>Apesar de ser um dos principais motivos de adoecimento da categoria, a sa\u00fade mental dos professores ainda n\u00e3o \u00e9 uma pauta relevante na discuss\u00e3o de novas pol\u00edticas p\u00fablicas ou at\u00e9 mesmo programas de acolhimento. \u201cO governo estadual n\u00e3o possui pol\u00edtica de cuidado ou de pesquisa, para mensurar como est\u00e1 a sa\u00fade mental do professor em Santa Catarina\u201d, afirma Katiane Weschenfelder, secret\u00e1ria de sa\u00fade do Sindicato dos Trabalhadores em Educa\u00e7\u00e3o de Santa Catarina (Sinte-SC), ao ressaltar tamb\u00e9m a falta de dados sobre a situa\u00e7\u00e3o. A reportagem tentou contato com a Secretaria Estadual de Educa\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o obteve resposta quanto \u00e0 solicita\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es acerca de a\u00e7\u00f5es de acolhimento psicol\u00f3gico a docentes, bem como dados sobre afastamentos devido \u00e0 sa\u00fade mental e cria\u00e7\u00e3o de novas pol\u00edticas p\u00fablicas sobre a quest\u00e3o. O espa\u00e7o permanece aberto para manifesta\u00e7\u00f5es.<br><br>\u201cN\u00e3o tive nenhuma ajuda do estado, precisei buscar sozinha, atrav\u00e9s de m\u00e9dicos particulares, apoio psicol\u00f3gico\u201d, relata Maria. A professora defende a necessidade da cria\u00e7\u00e3o de algum suporte institucional para a sa\u00fade mental do trabalhador no magist\u00e9rio. \u201cDentro de uma escola, o adoecimento \u00e9 ruim para todas as partes. Se voc\u00ea estiver mal, as crian\u00e7as, os adolescentes que voc\u00ea ensina, v\u00e3o levar para vida toda uma palavra ou atitude que voc\u00ea teve quando estava adoecida. \u00c9 uma responsabilidade muito grande\u201d, argumenta.<br><br>Foi ap\u00f3s o in\u00edcio da pandemia de covid-19, em 2020, que a sa\u00fade mental dos professores come\u00e7ou a dar sinais de esgotamento cr\u00edtico. De acordo com a pesquisa Sa\u00fade Mental dos Educadores 2022, realizada pela Associa\u00e7\u00e3o Nova Escola em parceria com o Instituto Ame Sua Mente, o percentual de docentes no pa\u00eds que consideram sua sa\u00fade mental \u201cruim\u201d ou \u201cmuito ruim\u201d quase dobrou nos anos da pandemia. Passou de 13% em 2021 para 21% em 2022. \u201cA situa\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica brasileira se agravou em um estado geral durante a pandemia\u201d, defende Elenise Abreu, pesquisadora e participante do projeto de extens\u00e3o Trabalho e Sa\u00fade Mental dos Professores Durante e Ap\u00f3s a Pandemia da Covid, da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Elenise acompanhou rodas de conversa entre docentes da rede p\u00fablica do Rio Grande do Sul sobre sa\u00fade mental. Segundo a pesquisadora, os professores relataram dificuldades maiores dos alunos no processo de alfabetiza\u00e7\u00e3o, que tinha sido realizado de forma prec\u00e1ria no per\u00edodo. Al\u00e9m disso, houve dificuldades em lidar com a readapta\u00e7\u00e3o de adolescentes que passaram um grande per\u00edodo do seu desenvolvimento psicossocial em confinamento. Ela relata que a complexidade dessas situa\u00e7\u00f5es exigiam muito mais do trabalho dos professores do que anteriormente. \u201cUm ambiente de trabalho que n\u00e3o promove condi\u00e7\u00f5es para desenvolver o of\u00edcio de maneira saud\u00e1vel muitas vezes gera adoecimento no profissional\u201d, define a psic\u00f3loga.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foi o que aconteceu com a professora Sandra. Ela come\u00e7ou a ter sintomas de dist\u00farbios psicol\u00f3gicos durante a pandemia. \u201cUm dia eu passei a m\u00e3o no rosto e senti um caro\u00e7o perto do meu ouvido, al\u00e9m de muita dor. Fui ao m\u00e9dico e ele n\u00e3o encontrou nenhuma causa f\u00edsica para esses sintomas. Depois de ter sido encaminhada ao psiquiatra, o diagn\u00f3stico foi de que todos esses problemas eram fruto da grande quantidade de <em>stress<\/em> que eu estava sentindo\u201d. A docente relata que a dificuldade de compreender uma nova rotina, onde as aulas deveriam se adaptar ao ensino remoto, a falta de contato social com os colegas, a rela\u00e7\u00e3o com os alunos e a carga hor\u00e1ria foram fatores que contribu\u00edram para o <em>stress<\/em> e a ansiedade nesse per\u00edodo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Segundo Sandra e Maria, o aumento do <em>stress<\/em> tamb\u00e9m est\u00e1 relacionado com o volume de trabalho, que cresceu paralelo \u00e0 carga de trabalho burocr\u00e1tico. Ele representa a quantidade de informa\u00e7\u00f5es que os professores precisam inserir no sistema <em>Professor Online<\/em>, sobre as aulas e o desempenho dos alunos. Sandra afirma que as demandas sobre esses registros aumentaram depois desse per\u00edodo, e muitas vezes ela acabava ultrapassando seu hor\u00e1rio de trabalho padr\u00e3o, de 40 horas semanais, para atualizar o sistema. \u201cEm vez de 8 horas por dia, eu acabava trabalhando 12, 14,&nbsp; trabalhava \u00e0s vezes de madrugada. Foi a\u00ed que eu adoeci\u201d, relembra.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os registros no sistema s\u00e3o obrigat\u00f3rios e requerem anota\u00e7\u00f5es de planejamento di\u00e1rio, semanal, quinzenal e anual. Sem eles, n\u00e3o h\u00e1 a libera\u00e7\u00e3o de outras abas para registrar a presen\u00e7a de alunos, por exemplo. Quem define as diretrizes de como essa documenta\u00e7\u00e3o deve ser feita \u00e9 a Ger\u00eancia de Gest\u00e3o e Educa\u00e7\u00e3o Fundamental, da Diretoria de Ensino pertencente \u00e0 Secretaria de Educa\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O documento sofreu altera\u00e7\u00f5es em 2020, ap\u00f3s a pandemia, com a Resolu\u00e7\u00e3o 009\/20 e Parecer 179\/20 do Conselho Estadual de Educa\u00e7\u00e3o, e a Portaria 924\/20\/SED, que definem que os planos de aula precisam ser disponibilizados e publicados na plataforma online. O excesso de burocracia nos registros faz com que o professor se sobrecarregue e prejudica n\u00e3o s\u00f3 o atendimento ao aluno, mas tamb\u00e9m a qualidade do seu cotidiano, analisa Evandro Acadrolli, presidente do Sinte-SC.\u201cA burocracia \u00e9 um descompasso com a pr\u00e1tica, e isso acaba fazendo com que o professor sinta uma insatisfa\u00e7\u00e3o muito grande\u201d, afirma.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com o decorrer da pandemia, os indicadores de sa\u00fade mental dos docentes se agravaram em todo o pa\u00eds. No Sul, ainda segundo a pesquisa Sa\u00fade Mental dos Educadores 2022, o percentual foi o pior de todas as regi\u00f5es: 24,2% consideraram sua sa\u00fade mental ruim ou p\u00e9ssima. Sobre os catarinenses, a 3\u00ba Pesquisa de Sa\u00fade do Trabalhador tamb\u00e9m concluiu que \u201ca categoria dos professores(as) est\u00e1 numa tend\u00eancia de agravamento do adoecimento, especialmente da sa\u00fade mental\u201d. As causas para isso s\u00e3o multifatoriais &#8211; envolvem a satisfa\u00e7\u00e3o com o trabalho e a qualidade de vida. Quem acompanhou a situa\u00e7\u00e3o de perto, como Pricila Tobias, psic\u00f3loga da rede municipal de Varge\u00e3o, no oeste de Santa Catarina, p\u00f4de perceber o impacto que a adapta\u00e7\u00e3o \u00e0 nova rotina e \u00e0s maneiras de lecionar trouxeram aos professores durante a pandemia.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al\u00e9m das adversidades criadas pela nova forma de ensinar, Pricila refor\u00e7a que o sono, a alimenta\u00e7\u00e3o e a qualidade de vida no per\u00edodo foram profundamente prejudicados. Somado a isso, havia tamb\u00e9m o luto proveniente das diversas perdas ocasionadas pela pandemia. \u201cQuando os professores retornaram \u00e0s atividades presenciais, j\u00e1 somatizavam muito gravemente sintomas de ansiedade e depress\u00e3o\u201d, relata. Foi ao perceber a gravidade da situa\u00e7\u00e3o que Pricila, em parceria com a Secretaria de Educa\u00e7\u00e3o de Varge\u00e3o, chefiada pela secret\u00e1ria Carmen Raymundi, criaram o projeto <em>Cuidando de quem cuida<\/em>. \u201cChegamos \u00e0 conclus\u00e3o que n\u00e3o fazia sentido atender somente os alunos se os professores e a comunidade escolar tamb\u00e9m n\u00e3o estavam bem psicologicamente\u201d, explica Pricila.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1200\" height=\"675\" src=\"https:\/\/jornalofatual.ufsc.br\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/educacao-criado-em-vargeao-projeto-cuidando-de-quem-cuida-sera-aplicado-em-todos-os-municipios-da-amai-1-1200x675.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1938\" srcset=\"https:\/\/jornalofatual.ufsc.br\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/educacao-criado-em-vargeao-projeto-cuidando-de-quem-cuida-sera-aplicado-em-todos-os-municipios-da-amai-1-1200x675.jpeg 1200w, https:\/\/jornalofatual.ufsc.br\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/educacao-criado-em-vargeao-projeto-cuidando-de-quem-cuida-sera-aplicado-em-todos-os-municipios-da-amai-1-300x169.jpeg 300w, https:\/\/jornalofatual.ufsc.br\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/educacao-criado-em-vargeao-projeto-cuidando-de-quem-cuida-sera-aplicado-em-todos-os-municipios-da-amai-1-768x432.jpeg 768w, https:\/\/jornalofatual.ufsc.br\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/educacao-criado-em-vargeao-projeto-cuidando-de-quem-cuida-sera-aplicado-em-todos-os-municipios-da-amai-1-1536x864.jpeg 1536w, https:\/\/jornalofatual.ufsc.br\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/educacao-criado-em-vargeao-projeto-cuidando-de-quem-cuida-sera-aplicado-em-todos-os-municipios-da-amai-1.jpeg 1600w\" sizes=\"(max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Imers\u00e3o realizada em um dos encontros do projeto <em>Cuidando de quem cuida<\/em>, em Varge\u00e3o. Foto: Carmen Raymundi<br><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com sess\u00f5es de escuta psicol\u00f3gica individuais e coletivas, somadas \u00e0 pr\u00e1ticas integrativas como yoga e fonoaudiologia, os profissionais da rede municipal de educa\u00e7\u00e3o recebiam apoio do poder p\u00fablico para cuidar de sua sa\u00fade mental. No caso dos professores, durante um per\u00edodo de aula por semana, eles t\u00eam acesso gratuito \u00e0s&nbsp; atividades. \u201cNosso projeto n\u00e3o teve investimento, fomos capazes de promover essas atividades utilizando os pr\u00f3prios recursos e profissionais do munic\u00edpio\u201d, afirma Carmen Raymundi.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O <em>Cuidando de quem cuida<\/em> tamb\u00e9m manteve parceria com o Laborat\u00f3rio de Psicologia Escolar e Educacional (LAPEE) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), promovendo a intera\u00e7\u00e3o de estagi\u00e1rios do curso de Psicologia durante o per\u00edodo pand\u00eamico. Exemplos como esse demonstram que pol\u00edticas p\u00fablicas para o apoio psicol\u00f3gico s\u00e3o vi\u00e1veis para as contas p\u00fablicas, al\u00e9m de promoverem a integra\u00e7\u00e3o entre diversos programas de educa\u00e7\u00e3o e sa\u00fade de diferentes institui\u00e7\u00f5es. Entretanto, ainda n\u00e3o existem a n\u00edvel estadual, mesmo com a tentativa de expans\u00e3o do projeto feita pela prefeitura de Varge\u00e3o, que comunicou a exist\u00eancia do projeto \u00e0 Secretaria Estadual de Educa\u00e7\u00e3o em 5 de junho de 2023.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma reuni\u00e3o foi realizada virtualmente em 12 de dezembro de 2023 para a discuss\u00e3o de poss\u00edveis parcerias interinstitucionais. De acordo com a Secretaria Municipal de Educa\u00e7\u00e3o de Varge\u00e3o, ainda n\u00e3o houve planejamento de a\u00e7\u00f5es concretas junto com a Secretaria Estadual de Educa\u00e7\u00e3o. A mesma tamb\u00e9m n\u00e3o respondeu ao questionamento da reportagem.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A situa\u00e7\u00e3o p\u00f3s-pandemia<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No retorno ao regime presencial, a professora Sandra relata que imaginou uma melhora na situa\u00e7\u00e3o, mas que isso n\u00e3o se refletiu na realidade. \u201cQuando voltei \u00e0 sala de aula, em 2022, comecei a ter crises de ansiedade, muitas vezes dentro da escola\u201d. As consequ\u00eancias desse adoecimento foram novos afastamentos e refor\u00e7o no tratamento psiqui\u00e1trico, que ela teve que novamente buscar sozinha.&nbsp; Maria passou por uma situa\u00e7\u00e3o similar. \u201cEu comecei a querer me isolar. Estava muito estressada em sala de aula e n\u00e3o conseguia mais manter o controle\u201d, afirma.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cNingu\u00e9m melhorou depois de 2020, n\u00f3s voltamos a trabalhar no autom\u00e1tico\u201d, alega Analu Burigo Haushhan, que trabalha na Escola de Educa\u00e7\u00e3o B\u00e1sica Santos Dumont, em Blumenau, como assistente t\u00e9cnico-pedag\u00f3gico e tamb\u00e9m \u00e9 psic\u00f3loga. Ela orienta e faz parte da coordena\u00e7\u00e3o docente da escola, participando da assist\u00eancia aos professores, e tamb\u00e9m acabou adoecendo. Segundo Analu, n\u00e3o h\u00e1 a quem recorrer quando um professor adoece mental e emocionalmente. \u201cA gente n\u00e3o tem, nas escolas estaduais, um psic\u00f3logo para tratar da sa\u00fade mental dos professores em espec\u00edfico\u201d, afirma.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A presen\u00e7a de psic\u00f3logos e assistentes sociais na rede p\u00fablica de ensino brasileira \u00e9 obrigat\u00f3ria desde 2019, ap\u00f3s a publica\u00e7\u00e3o da lei n\u00ba 13.935. Em Santa Catarina, somente 30% das escolas da rede p\u00fablica t\u00eam psic\u00f3logos dispon\u00edveis, segundo o Censo Escolar do Instituto de Pesquisa An\u00edsio Teixeira (Inep), de 2023. Apesar de n\u00e3o chegar nem \u00e0 metade das escolas, ainda lidera o ranking em todo pa\u00eds, tendo contratado mais que o dobro de psic\u00f3logos desde 2022 &#8211; passou de 13%, em 2022, para 30%. O atendimento desses psic\u00f3logos \u00e9 focado no processo de ensino-aprendizagem, conforme trata a reda\u00e7\u00e3o da lei: ele oferece orienta\u00e7\u00e3o aos professores, mas n\u00e3o uma pol\u00edtica de cuidado espec\u00edfico com a sa\u00fade organizacional do trabalhador.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O ac\u00famulo emocional da pandemia, somado com as novas adapta\u00e7\u00f5es do trabalho e os impactos no desenvolvimento psicoemocional dos estudantes, tornaram a conviv\u00eancia escolar p\u00f3s-pand\u00eamica mais estressante. \u201cEu acho que foi uma sobrecarga, um per\u00edodo p\u00f3s-traum\u00e1tico, onde tudo se potencializa\u201d, define Katiane, ao relembrar os relatos de professores que a secretaria de sa\u00fade do Sinte-SC recebeu. \u201cComo n\u00e3o teve um tratamento adequado nem com o aluno e nem para os professores, ocasionou o aumento de problemas psicol\u00f3gicos\u201d, diz.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Idea\u00e7\u00e3o suicida<\/strong><br><\/h2>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cEu vou terminar de dar o conte\u00fado, esperar as provas finais, mas quando isso passar, eu vou me matar. Porque eu n\u00e3o aguento mais.\u201d<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essas foram as palavras que uma professora disse \u00e0 Katiane, buscando orienta\u00e7\u00e3o da secretaria de sa\u00fade do Sinte-SC em um momento de grande ang\u00fastia mental. A docente, que n\u00e3o teve seu nome revelado, estava em situa\u00e7\u00e3o similar a de 27% dos participantes da 3\u00aa Pesquisa de Sa\u00fade do Trabalhador, que relataram j\u00e1 terem possu\u00eddo pensamentos suicidas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A idea\u00e7\u00e3o suicida parte, muitas vezes, de um quadro patol\u00f3gico de depress\u00e3o, mas n\u00e3o somente. \u201cUma pessoa que possui idea\u00e7\u00e3o suicida concebe que o autoexterm\u00ednio \u00e9 uma solu\u00e7\u00e3o para o grande sofrimento que ela est\u00e1 sentindo\u201d, define Bruno Chapadeiro, psic\u00f3logo e especialista em sa\u00fade mental do trabalhador. A psicologia do trabalho define que a rela\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo com o seu of\u00edcio \u00e9 identit\u00e1ria \u2013 os cidad\u00e3os s\u00e3o definidos quase sempre pelo seu trabalho, e ele tem uma import\u00e2ncia muito grande na sa\u00fade mental. Para al\u00e9m das condi\u00e7\u00f5es f\u00edsicas e emocionais de um ambiente de trabalho, a viv\u00eancia da profiss\u00e3o expressa uma parte fundamental do contentamento do indiv\u00edduo com a vida, explica Bruno.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cProcurei o m\u00e9dico com irrita\u00e7\u00e3o, des\u00e2nimo, tudo isso. Estava tendo pensamentos problem\u00e1ticos, eu n\u00e3o queria mais viver\u201d, relembra Maria. A sa\u00edda para esses casos onde a sa\u00fade mental chega ao extremo \u00e9, na grande maioria das vezes, a medicaliza\u00e7\u00e3o. Entretanto, isso n\u00e3o resolve totalmente o problema. \u201cA medica\u00e7\u00e3o \u00e9 s\u00f3 metade do tratamento. A outra metade n\u00f3s entendemos como pr\u00e1ticas integrativas e qualidade de vida, que v\u00eam para auxiliar nesse processo\u201d, argumenta a psic\u00f3loga escolar Pricila. Conceber uma qualidade de vida onde \u00e9 poss\u00edvel manter a sa\u00fade f\u00edsica, social e um ambiente de trabalho decente \u00e9 essencial para um psicol\u00f3gico sadio e tamb\u00e9m para a conviv\u00eancia escolar, complementa Bruno.&nbsp;<br><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Precariza\u00e7\u00e3o do trabalho e sa\u00fade mental&nbsp;<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cO professor tem, em sua ess\u00eancia, uma paix\u00e3o por ensinar. Mas s\u00f3 isso n\u00e3o \u00e9 suficiente\u201d, defende Katiane. O conceito de ter uma profiss\u00e3o por amor ao of\u00edcio \u00e9 muitas vezes romantizado socialmente, e serve como uma cortina para a falta de valoriza\u00e7\u00e3o do trabalho. No caso do magist\u00e9rio, que lida profundamente com a forma\u00e7\u00e3o psicossocial de indiv\u00edduos, pressup\u00f5e\u2013se que os trabalhadores tenham uma \u201cvoca\u00e7\u00e3o\u201d, uma esp\u00e9cie de instinto e cuidado afetuoso especial para ensinar outros seres humanos. \u201cO trabalho do professor exige uma carga emocional muito grande. Voc\u00ea lida com seres humanos em desenvolvimento, eles precisam de muita aten\u00e7\u00e3o e cuidado. N\u00f3s absorvemos tudo\u201d, relata a professora Sandra.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entretanto, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel pagar as contas somente com o amor pela profiss\u00e3o. A paix\u00e3o pelo of\u00edcio tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 capaz de sanar problemas decorrentes da ins\u00f4nia, falta de descanso e do esfor\u00e7o mec\u00e2nico repetitivo. Al\u00e9m desses fatores, sobressaem-se ao afeto a preocupa\u00e7\u00e3o com os pre\u00e7os no supermercado, a educa\u00e7\u00e3o dos filhos, a progress\u00e3o na carreira e v\u00e1rios outros fatores que envolvem, centralmente, uma \u00fanica quest\u00e3o: a valoriza\u00e7\u00e3o do trabalho. A sala de aula cheia e a rela\u00e7\u00e3o com os alunos muitas vezes podem ser estressantes, mas n\u00e3o \u00e9 o principal expoente da preocupa\u00e7\u00e3o de um professor, segundo Sandra. \u201cO que mais adoece \u00e9 a falta de valoriza\u00e7\u00e3o do nosso trabalho\u201d, diz.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img decoding=\"async\" width=\"1200\" height=\"797\" src=\"https:\/\/jornalofatual.ufsc.br\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/DSC_3541-1-1200x797.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1939\" srcset=\"https:\/\/jornalofatual.ufsc.br\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/DSC_3541-1-1200x797.jpg 1200w, https:\/\/jornalofatual.ufsc.br\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/DSC_3541-1-300x199.jpg 300w, https:\/\/jornalofatual.ufsc.br\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/DSC_3541-1-768x510.jpg 768w, https:\/\/jornalofatual.ufsc.br\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/DSC_3541-1-1536x1020.jpg 1536w, https:\/\/jornalofatual.ufsc.br\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/DSC_3541-1-2048x1360.jpg 2048w\" sizes=\"(max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Professores estaduais estavam em greve de 23 de abril a 8 de maio deste ano, reivindicando melhores condi\u00e7\u00f5es de trabalho. Foto: Fernanda Zwirtes<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um professor da rede estadual que possui licenciatura plena e leciona 40 horas por semana recebe hoje, no m\u00e1ximo, R$ 5 mil, segundo o site da Secretaria do Estado da Educa\u00e7\u00e3o. Esse n\u00e3o \u00e9 o valor inicial: na pr\u00e1tica, a remunera\u00e7\u00e3o de R$ 3,6 mil recebe uma bonifica\u00e7\u00e3o para chegar ao piso nacional, de R$ 4.580,57. Se considerada a infla\u00e7\u00e3o acumulada desde setembro de 2021, os R$ 5 mil correspondiam, em fevereiro de 2024, a somente R$ 4.333,67, ou seja, uma defasagem inflacion\u00e1ria de 16%.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Levando em conta o valor do imposto de renda e previd\u00eancia social, a remunera\u00e7\u00e3o l\u00edquida \u00e9 de R$ 4.686,89. Nesse valor, est\u00e1 descontado um vale-alimenta\u00e7\u00e3o de R$ 396,00. Para se ter uma no\u00e7\u00e3o, o valor da cesta b\u00e1sica em abril deste ano, na capital Florian\u00f3polis, era de R$ 781,53. Para sustentar uma fam\u00edlia, esse valor n\u00e3o basta. \u201cPara ter um sal\u00e1rio decente um professor precisa, \u00e0s vezes, trabalhar em tr\u00eas escolas. S\u00e3o aulas de manh\u00e3, tarde e noite. Isso gera um<em> stress <\/em>absurdo\u201d, argumenta a professora Sandra.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As limita\u00e7\u00f5es financeiras n\u00e3o aparecem s\u00f3 no final do m\u00eas, mas tamb\u00e9m durante toda a profiss\u00e3o. Atualmente, Santa Catarina \u00e9 um dos estados que menos promove a progress\u00e3o de carreira em todo o Brasil, equiparando-se com Sergipe. Isso significa que um professor efetivo da rede estadual, com licenciatura plena, n\u00e3o obt\u00e9m aumento na remunera\u00e7\u00e3o durante todo o tempo em que leciona, segundo um levantamento feito pelo Sinte-SC em 2023. Quanto \u00e0 capacita\u00e7\u00e3o, o profissional ganha um aumento de 8% para especializa\u00e7\u00e3o, 10% se fizer mestrado e 25% doutorado. Com isso, torna-se dif\u00edcil imaginar uma qualifica\u00e7\u00e3o acad\u00eamica, pois o aumento no sal\u00e1rio n\u00e3o compensa frente ao tempo e disposi\u00e7\u00e3o necess\u00e1rias para conciliar estudo e trabalho por mais de 40 horas semanais.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img decoding=\"async\" width=\"686\" height=\"503\" src=\"https:\/\/jornalofatual.ufsc.br\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/download-1.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-1940\" srcset=\"https:\/\/jornalofatual.ufsc.br\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/download-1.png 686w, https:\/\/jornalofatual.ufsc.br\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/download-1-300x220.png 300w\" sizes=\"(max-width: 686px) 100vw, 686px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Amplitude salarial dos professores do magist\u00e9rio em n\u00edvel de licenciatura, por rede estadual, em 2022. Fonte: Profiss\u00e3o Docente (2023), elaborado pelo Sinte-SC.<br><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al\u00e9m da remunera\u00e7\u00e3o defasada pela infla\u00e7\u00e3o e a defici\u00eancia de progress\u00e3o salarial, ainda h\u00e1 outra quest\u00e3o: 70,2% do quadro de professores da rede estadual de Santa Catarina, que soma 35,5 mil trabalhadores, est\u00e3o em regime de admiss\u00e3o em car\u00e1ter tempor\u00e1rio (ACT). O estado possui o menor n\u00famero de professores efetivos por volume de arrecada\u00e7\u00e3o tribut\u00e1ria entre todas as unidades da federa\u00e7\u00e3o. S\u00f3 se iguala ao Esp\u00edrito Santo, segundo uma estimativa realizada pelo Sinte-SC considerando a arrecada\u00e7\u00e3o tribut\u00e1ria estadual informada pelo Conselho Nacional de Pol\u00edtica Fazend\u00e1ria (Confaz) e os v\u00ednculos formais de trabalho na rede estadual, conforme registros do Relat\u00f3rio Anual de Informa\u00e7\u00f5es Sociais (RAIS) de 2021. De acordo com a lei 16.861\/2015, estes profissionais s\u00e3o contratados somente durante o ano letivo e est\u00e3o vinculados ao regime geral de previd\u00eancia social.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com um contingente cada vez maior de trabalhadores n\u00e3o efetivos, a fragilidade dos direitos desses servidores p\u00fablicos os obriga a buscar mais de um emprego. \u201cAlguns professores ACTs chegam a ter tr\u00eas escolas na sua carga hor\u00e1ria, trabalhando todos os turnos\u201d, relata Sandra. Segundo ela, se sentir amparado pelos direitos \u00e9 crucial para o seu bem-estar psicoemocional.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Imagine ser respons\u00e1vel por parte do desenvolvimento e aprendizado de dezenas de crian\u00e7as e adolescentes todos os dias, com a obriga\u00e7\u00e3o de preparar aulas, corrigir provas e promover uma educa\u00e7\u00e3o humanizada, valorizando a individualidade de cada aluno. Al\u00e9m dessas circunst\u00e2ncias, adicione o fato de precisar trabalhar at\u00e9 nos finais de semana para dar conta do volume de trabalho. Some a isso um sal\u00e1rio defasado, a falta de incentivo \u00e0 capacita\u00e7\u00e3o, a preocupa\u00e7\u00e3o com a aposentadoria e, no caso de professores ACTs, a garantia de um emprego e a compacta\u00e7\u00e3o da tabela salarial e uma crescente desumaniza\u00e7\u00e3o da figura do professor pela sociedade. \u201cEm Santa Catarina, o professor se sente muito desprestigiado no que diz respeito a sua valoriza\u00e7\u00e3o\u201d, afirma o presidente do Sinte-SC.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>O que existe para cuidar?&nbsp;<\/strong><br><\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quanto \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de novas leis, est\u00e1 em tramita\u00e7\u00e3o o projeto de lei 0526\/2023, na Assembleia Legislativa do Estado de Santa Catarina (Alesc),&nbsp; que institui o programa Escola do Professor. Com a autoria do deputado Mauro de Nadal (MDB), ele \u00e9 voltado para a promo\u00e7\u00e3o do bem-estar emocional, da sa\u00fade mental e psicol\u00f3gica dos professores da rede p\u00fablica de ensino do estado. Entretanto, o projeto ainda n\u00e3o foi aprovado pelo legislativo, e sofreu supress\u00e3o em um dos seus pontos fundamentais, o artigo 3\u00ba.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ele previa a cria\u00e7\u00e3o de locais espec\u00edficos para o atendimento psicol\u00f3gico dos professores estaduais em duas regi\u00f5es. As duas unidades seriam criadas no meio-oeste ou oeste catarinense e outra no sul ou litoral norte do estado. A exclus\u00e3o aconteceu ap\u00f3s um pedido relatado por autoria da deputada Ana Campagnolo (PL), que alegou v\u00edcio de inconstitucionalidade formal subjetiva e material. Na pr\u00e1tica, isso significa que a lei iria interferir \u201cdiretamente no funcionamento de \u00f3rg\u00e3os do Poder Executivo, ao criar atribui\u00e7\u00f5es para \u00f3rg\u00e3os estaduais\u201d, de acordo com o documento.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Seguido da emenda supressiva, houve o voto da Comiss\u00e3o de Finan\u00e7as e Tributa\u00e7\u00e3o, que aprovou o projeto. O voto foi baseado no relat\u00f3rio de of\u00edcios emitidos por diversas institui\u00e7\u00f5es de Santa Catarina \u2013 o que chama aten\u00e7\u00e3o \u00e9 o parecer desfavor\u00e1vel da Secretaria de Educa\u00e7\u00e3o, atrav\u00e9s de sua Diretoria de Ensino. A mesma alega que \u00e9 contr\u00e1ria a execu\u00e7\u00e3o do PL 0526\/2023 porque as a\u00e7\u00f5es previstas nele, ou seja, o atendimento psicossocial a professores, j\u00e1 est\u00e3o sendo implementados pelas Coordenadorias Regionais de Educa\u00e7\u00e3o (CREs).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A reportagem entrou em contato com todas as 36 CREs de Santa Catarina, questionando se existem realmente programas de atendimento psicossocial e acolhimento aos docentes na quest\u00e3o de sua sa\u00fade mental sendo implementados nas unidades. Destas, somente oito responderam at\u00e9 o fechamento da reportagem \u2013 as dos munic\u00edpios de Tubar\u00e3o, Campos Novos, Florian\u00f3polis, Rio do Sul, Brusque, Ituporanga, S\u00e3o Bento do Sul e Conc\u00f3rdia. Tubar\u00e3o, Campos Novos, Brusque e Ituporanga relataram que n\u00e3o existem programas de aten\u00e7\u00e3o psicossocial, com foco na sa\u00fade organizacional, sendo oferecidos aos professores. Conc\u00f3rdia e S\u00e3o Bento do Sul dizem o mesmo, mas salientam que as coordenadorias oferecem forma\u00e7\u00e3o continuada, a qual possui tem\u00e1ticas de capacita\u00e7\u00e3o, muitas vezes sobre a sa\u00fade mental, que orientam os professores.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As CREs de Rio do Sul e Florian\u00f3polis alegam que o atendimento psicossocial aos docentes \u00e9 feito atrav\u00e9s do N\u00facleo de Apoio e Preven\u00e7\u00e3o \u00e0 Viol\u00eancia nas Escolas (Nepre). Segundo as equipes do Nepre de Rio do Sul e Florian\u00f3polis, o setor possui psic\u00f3logos e assistentes sociais em sua composi\u00e7\u00e3o, mas seu trabalho \u00e9 de assessoria e atendimento em psicologia educacional.&nbsp; Em situa\u00e7\u00f5es emergenciais, existe o acolhimento, mas com objetivo principal de entender as necessidades em termos de apoio e preven\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o de acompanhamento psicol\u00f3gico e\/ou psicossocial na sa\u00fade organizacional, de acordo com o Nepre da CRE Grande Florian\u00f3polis. Quando necess\u00e1rio, s\u00e3o orientados a buscar atendimento na rede p\u00fablica. Ap\u00f3s o acolhimento inicial nessas situa\u00e7\u00f5es, os professores s\u00e3o encaminhados para as unidades de sa\u00fade ou para os Centros de Aten\u00e7\u00e3o Psicossocial (Caps).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Maria, Sandra e Analu relatam que, quando precisaram de apoio, n\u00e3o contataram o sistema p\u00fablico de sa\u00fade, mas sim buscaram vias privadas para obter atendimento psicol\u00f3gico. Apesar de dispon\u00edvel, o sistema p\u00fablico muitas vezes tem o atendimento prec\u00e1rio no que diz respeito \u00e0 sa\u00fade mental. \u00c9 preciso esperar por um atendimento com psic\u00f3logo ou psiquiatra, e as possibilidades de acompanhamento terap\u00eautico s\u00e3o limitadas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dessa forma, pagar uma consulta particular com psiquiatra e sess\u00f5es de terapia com o psic\u00f3logo s\u00e3o mais vi\u00e1veis porque suprem a demanda de urg\u00eancia que esses casos possuem. H\u00e1 a possibilidade de buscar um profissional pelo plano de sa\u00fade dos servidores p\u00fablicos do estado, o SC Sa\u00fade, por\u00e9m n\u00e3o s\u00e3o todos os que oferecem atendimento via conv\u00eanio. \u201cTanto psiquiatra como psic\u00f3logo eu pago por fora, e se n\u00e3o fosse o atendimento deles, n\u00e3o sei como eu teria ficado\u201d, afirma Analu.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al\u00e9m do PL 0526\/2023, n\u00e3o tramita nenhuma outra medida que possa criar uma pol\u00edtica p\u00fablica de apoio \u00e0 sa\u00fade mental dos docentes da rede p\u00fablica estadual. Tamb\u00e9m n\u00e3o houve retorno da Secretaria Estadual de Educa\u00e7\u00e3o sobre implementa\u00e7\u00e3o de projetos similares ao <em>Cuidando de quem cuida<\/em> a n\u00edvel estadual. Dessa maneira, um professor que adoece dentro da escola tem acesso \u00e0 orienta\u00e7\u00e3o dos psic\u00f3logos dispon\u00edveis na CRE da sua regi\u00e3o, mas n\u00e3o acompanhamento ou acolhimento a m\u00e9dio e longo prazo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Quais s\u00e3o as sa\u00eddas?<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cMuita gente n\u00e3o quer procurar um psic\u00f3logo ou psiquiatra porque \u00e9 \u2018coisa de doido\u2019, \u2018de gente maluca\u2019. Os professores t\u00eam, muitas vezes, vergonha de procurar ajuda\u201d, explica a psic\u00f3loga Analu. O estigma sobre o adoecimento mental ainda \u00e9 muito forte e impacta, diretamente, na forma como os trabalhadores buscam solu\u00e7\u00f5es. Sem a exist\u00eancia de programas de acolhimento e conversas francas sobre o tema, ele acaba esquecido \u2013 mas n\u00e3o vai embora. Se uma pessoa adoece, \u00e9 latente que as consequ\u00eancias dessa condi\u00e7\u00e3o respinguem em outras pessoas, em especial nos alunos. \u201cA escola \u00e9 como uma engrenagem. O que afeta um, afeta a todos\u201d, define Maria.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Apesar da sa\u00fade mental de cada pessoa ser uma quest\u00e3o individual, quando seu adoecimento envolve tantos fatores sociais, econ\u00f4micos e estruturais, a cura \u00e9 coletiva. \u201cSe estou sentindo vergonha pela minha condi\u00e7\u00e3o de adoecimento e vejo que meus semelhantes est\u00e3o passando por algo parecido, eu me fortale\u00e7o e consigo receber apoio no coletivo\u201d, exemplifica o psic\u00f3logo do trabalho Bruno. Al\u00e9m do fortalecimento da rede de afetos, a solu\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m \u00e9 pol\u00edtica \u2013 com a melhora das condi\u00e7\u00f5es de trabalho e o amparo jur\u00eddico e psicol\u00f3gico pelas institui\u00e7\u00f5es devidas, o suporte \u00e9 muito mais efetivo e o cuidado, ampliado. \u201c\u00c9 necess\u00e1rio que busquemos a transforma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, para discutir a organiza\u00e7\u00e3o desse processo de trabalho, que caminha cada vez mais para a precariza\u00e7\u00e3o, sobrecarga e adoecimento do trabalhador\u201d, afirma.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para sanar esses problemas, \u00e9 preciso investimento or\u00e7ament\u00e1rio, defende Evandro Acadrolli, presidente do Sinte-SC. Os gastos p\u00fablicos com educa\u00e7\u00e3o em Santa Catarina, no primeiro bimestre de 2024, ainda est\u00e3o abaixo do n\u00edvel m\u00ednimo constitucional, que determina que 25% da arrecada\u00e7\u00e3o da Receita L\u00edquida de Impostos (RLI) devem ser investidos em educa\u00e7\u00e3o. De acordo com dados da Secretaria de Estado da Fazenda, ainda podem ser investidos R$ 470 milh\u00f5es. Al\u00e9m disso, o estado est\u00e1 em super\u00e1vit or\u00e7ament\u00e1rio de R$ 2,97 bilh\u00f5es, segundo o resultado parcial do segundo bimestre de 2024, disponibilizado pelo Portal de Transpar\u00eancia de Santa Catarina.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1200\" height=\"797\" src=\"https:\/\/jornalofatual.ufsc.br\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/DSC_3574-1200x797.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1941\" srcset=\"https:\/\/jornalofatual.ufsc.br\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/DSC_3574-1200x797.jpg 1200w, https:\/\/jornalofatual.ufsc.br\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/DSC_3574-300x199.jpg 300w, https:\/\/jornalofatual.ufsc.br\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/DSC_3574-768x510.jpg 768w, https:\/\/jornalofatual.ufsc.br\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/DSC_3574-1536x1020.jpg 1536w, https:\/\/jornalofatual.ufsc.br\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/DSC_3574-2048x1360.jpg 2048w\" sizes=\"(max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Dentre as reivindica\u00e7\u00f5es da categoria, estavam a descompacta\u00e7\u00e3o da tabela salarial e novos concursos p\u00fablicos. Foto: Fernanda Zwirtes<br><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Segundo a avalia\u00e7\u00e3o das propostas do governo estadual feita pelo SINTE-SC, nesse cen\u00e1rio, a implementa\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas para o cuidado da sa\u00fade mental de professores \u00e9 vi\u00e1vel para as contas p\u00fablicas, assim como aconteceu com o projeto <em>Cuidando de quem cuida<\/em>. Al\u00e9m de pol\u00edticas espec\u00edficas para esse tema, o governo poderia ainda aplicar R$ 900 milh\u00f5es \u00e0 folha do magist\u00e9rio com recursos pr\u00f3prios, considerando as proje\u00e7\u00f5es da Lei Or\u00e7ament\u00e1ria Anual (LOA), sem descumprir o limite definido pela Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se Santa Catarina deseja ser um estado onde as estat\u00edsticas positivas reflitam no cotidiano de seus cidad\u00e3os, agora e no futuro, \u00e9 necess\u00e1rio que hist\u00f3rias como as de Maria e Sandra, e de todos os professores do ensino p\u00fablico, sejam ouvidas. O esgotamento da sa\u00fade mental e a precariza\u00e7\u00e3o do trabalho, asseverados pela pandemia, s\u00e3o sequelas de uma falta de aten\u00e7\u00e3o latente h\u00e1 d\u00e9cadas na educa\u00e7\u00e3o brasileira. Para que a escola n\u00e3o se torne adoecedora,&nbsp; \u00e9 preciso que os regulamentos e pol\u00edticas p\u00fablicas se atentem \u00e0 realidade, e n\u00e3o \u00e0 burocracia. Sem a\u00e7\u00f5es concretas, o adoecimento mental continuar\u00e1 a ser uma ferida aberta no ambiente escolar, impactando n\u00e3o s\u00f3 quem ensina e aprende hoje &#8211; mas amanh\u00e3, tamb\u00e9m.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>*Maria Neves \u00e9 um nome fict\u00edcio. A entrevistada n\u00e3o quis se identificar.<br>A Secretaria do Estado da Educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o retornou ap\u00f3s a solicita\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es e entrevistas. O espa\u00e7o permanece aberto para o contradit\u00f3rio.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No estado com a 6\u00aa maior economia do pa\u00eds, pesquisa mostra que professores da rede estadual de ensino t\u00eam sa\u00fade mental comprometida FERNANDA ZWIRTES \u201cSinto vontade de acabar com tudo\u201d, afirma Maria Neves*. 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