‘Não tem pauta que vale a tua vida’: Jornalista Yan Boechat fala sobre cobertura de guerras a alunos da UFSC
Repórter revelou desafios no trabalho e perspectivas sobre conflitos armados atuais em aula inaugural do curso de Jornalismo
MAJU BARBOSA
A Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) promoveu a aula inaugural “A Reportagem na Linha de Frente de Conflitos Armados”, realizada pelo jornalista Yan Boechat. O evento gratuito aconteceu na sexta-feira (21), no Centro de Comunicação e Expressão (CCE) do campus Trindade, em Florianópolis (SC), e reuniu alunos do curso de Jornalismo que esclareceram dúvidas sobre situações vividas em guerras, mercado de trabalho e como iniciar carreira na cobertura de conflitos.
Jornalista formado há 25 anos pela UFSC, Yan relatou que escolheu a profissão e a área de trabalho a partir do desejo de viajar e conhecer lugares diferentes. Durante as duas décadas em que cobriu conflitos armados, desastres naturais e crises políticas, o repórter escreveu para os principais veículos de comunicação do país e fotografou guerras e conflitos ao redor do mundo, como entre Rússia e Ucrânia e Palestina e Israel.

No início da aula inaugural, Yan explicou sobre o dia a dia na cobertura de conflitos. Segundo o jornalista, o preço da diária do “fixer”, profissional que guia o jornalista em território desconhecido, está mais alto do que anos atrás. O jornalismo tradicional se enfraqueceu pela hiperprodução possibilitada pelas pelas redes sociais e todas essas questões dificultam o trabalho da imprensa, de acordo com Yan. “A produção de jornalismo de informação primária neste âmbito é escassa no Brasil atualmente”, destacou.
Além disso, ele afirmou ser um repórter receoso, já que o medo o protegeu de diversas situações perigosas. Boechat expôs experiências que teve enquanto trabalhava, para desmistificar o estereótipo do repórter de guerra “super corajoso, que não tem medo de nada”. Em uma das histórias, o jornalista mencionou a situação em que uma bala de atirador de elite quase atingiu a sua cabeça. “O que dá mais medo é o assobio antes da bomba explodir”, relatou.

“Não podemos mudar o acontecimento em nossa frente, mas podemos fazer um registro histórico. É um privilégio fazer isso, é um privilégio ser jornalista”, declarou. Para Yan, o papel do fotojornalista na guerra é revelar os horrores e atrocidades do momento em que fotos são tiradas e vídeos são gravados, porque muitas vezes o profissional não é capaz de oferecer ajuda as pessoas que sofrem. “O jornalista nunca experimenta a guerra como quem vive ali, porque ele sempre pode voltar para casa”, afirmou.
Yan também relembrou a fome e a violência nas periferias do Brasil. “A gente tende a romantizar e superestimar as tragédias que ocorrem longe da gente, e a naturalizar as que ocorrem perto”, defende. Ele citou como exemplo suas vivências de infância, durante a década de 1980, em Nova Iguaçu, município localizado na Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro. A cidade é conhecida pela presença do crime organizado, disputas territoriais, problemas estruturais e de segurança pública.
Diante de um cenário de tragédias, o jornalista acredita que consegue lidar com cenas de morte e tristeza sem abalar sua saúde mental. Atualmente, ele produz reportagens como freelancer e pensa em dar aulas no futuro.
Foto: Lilian Carlotto/UFSC









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