Pesquisa identifica resíduos compatíveis com sangue em centro de tortura da ditadura militar em SP

Laboratório da UFSC em Blumenau (SC) analisou amostra coletada em prédio onde pelo menos 52 pessoas foram mortas por militares, segundo Unifesp

ISADORA GILIOLI

Vestígios de sangue foram descobertos no prédio onde atuou o Destacamento de Operações de Informação – Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi), em São Paulo (SP), durante o período da ditadura militar brasileira. A descoberta é fruto de uma pesquisa interinstitucional e foi divulgada pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), uma das instituições coordenadoras, em 3 de agosto. 

A pesquisa é realizada em parceria com a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com a participação da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e da Universidade de São Paulo (USP). A análise combinou técnicas de arqueologia e ciências forenses para examinar o local, associado a interrogatórios, tortura e assassinatos durante o regime militar.

Em agosto de 2023, o projeto realizou escavações e coletas de amostras biológicas. Elas foram analisadas pelo Laboratório de Física da UFSC, no campus Blumenau (SC), durante dois anos. Em 2026, foi possível identificar resíduos biológicos compatíveis com sangue.

Na década de 1970, o DOI-Codi foi um dos principais centros de repressão da ditadura militar. Segundo a Unifesp, mais de sete mil pessoas foram detidas no local e pelo menos 52 foram mortas ali. O prédio continuou sendo utilizado nos anos seguintes após a ditadura, e apenas em 2014 — mais de quatro décadas depois — foi tombado. Segundo os pesquisadores, isso causou a perda de possíveis vestígios dos crimes ali cometidos. 

O projeto iniciou em 2022 e os pesquisadores relatam que tiveram que ser cuidadosos com os registros encontrados. “O edifício funciona quase como uma camada arqueológica, em que diferentes momentos da sua história ficaram sobrepostos. É preciso reconhecer essas camadas e tentar compreender os elementos que podem ser associados ao período do funcionamento do DOI-Codi”, explica Cláudia Plens, coordenadora da etapa de arqueologia forense na pesquisa.

A responsável pela descoberta do sangue foi Maryah Elisa Morastoni Haertel, técnica do Laboratório de Física da UFSC em Blumenau. “Quando a gente tirou o contrapiso da enfermaria, percebemos que eles removeram o taco, mas não limparam, então ficou uma camada de sujeira. Foi nessa ‘sujeira’ que as luzes forenses apontaram uma positividade para os vestígios [de sangue]”, ela afirma.

“É importante também dizer que existe o limite metodológico. A gente consegue identificar que houve sangue naquele local na década de 80. Porém, a gente não consegue ligar a vítimas específicas”, complementa Maryah.

Além da presença de sangue, a pesquisa também identificou inscrições gravadas na parede de um banheiro. A inspeção da área revelou marcações e números que formavam um calendário de 13 dias. As datas presentes nas inscrições correspondem aos anos de 1970 e 1981.

Inscrições gravadas na parede de um dos banheiros do antigo DOI-Codi. Foto: Anderson Tognoli

Os pesquisadores retornaram ao edifício em novembro de 2025 para coletar mais amostras. Maryah esclarece que ainda não é possível divulgar os resultados recentes dessa última análise. “Mas conseguimos abrir novas janelas arqueológicas e trouxemos mais amostras, e, com isso, vai ser possível fazer mais testes com outros métodos e ampliar a análise dessa molécula degradada”, afirma a pesquisadora.

Foto: Maryah Elisa Morastoni Haertel


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