Comunidade denuncia retrocesso na educação indígena em SC
Escolas apresentam problemas no currículo, falta de capacitação de professores e infraestrutura precária
PAULA de MILANO
Professores e comunidade protestaram contra a falta de investimentos nas escolas indígenas em Santa Catarina. Ao todo, são 43 unidades das redes estaduais e municipais, que atendem cerca de 3 mil estudantes dos povos Guarani, Kaingang e Xokleng, segundo a Secretaria de Estado da Educação (SED). Os principais problemas apontados são a falta de capacitação de professores, problemas de infraestrutura e falhas no currículo.
“Nossos alunos têm que dar conta de um conteúdo que não está ligado à nossa realidade”, afirmou Getúlio Narsizo, professor há 30 anos da Escola Cacique Vanhkre, em Chapecó (SC). A unidade escolar também lida com problemas estruturais. O banheiro quebrou há 90 dias e, desde então, estudantes e professores utilizam banheiros químicos. A escola também apresenta falta de sala de aulas, que exige uma separação de turmas semanal.
As discussões ocorreram no Seminário Estadual sobre Currículo e Educação Indígena, realizado na Assembleia Legislativa de Santa Catarina (Alesc), na quarta-feira (29). O evento foi organizado pelo deputado estadual Marquito (PSOL). A liderança indígena Eunice Antunes, Kerexu, apontou que durante os anos 2000 houve melhorias na educação, investimentos na capacitação e formação de professores indígenas, além de propostas curriculares a partir da perspectiva indígena. Em contrapartida, existe um retrocesso em relação à época: “Ao invés de evoluir, o sistema tenta amarrar e não deixar as escolas indígenas seguirem o processo de ensino e aprendizado próprio dentro do nosso direito que já está garantido”, criticou.
A legislação garante a estrutura e funcionamento dessas unidades, ensino intercultural e bilíngue de línguas maternas. No entanto, segundo a procuradora federal Analúcia Hartmann, existe uma dificuldade em cumprir esse direito. Uma das queixas discutidas foi a falta da exigência de professores capacitados na língua-mãe em processos seletivos.
Também há dificuldade em fazer com que a escola indígena consiga trazer suas pedagogias, costumes e tradição. Administradores escolares convivem com o problema diariamente. “Temos diversas leis para fazer a escola indígena. Mas quando você entra na escola, ela já tem um modelo, um currículo com poucas mudanças, e um modo de funcionamento conforme as demais escolas”, afirmou Josias de Melo, coordenador pedagógico da Escola Indígena de Ensino Fundamental Cacique Pirã, em Seara (SC).
A Secretaria de Estado da Educação, por meio do gerente de modalidades e diversidades curriculares, Anderson Rodrigues Floriano, afirma que está, desde o ano passado, trabalhando mais nas escolas indígenas, principalmente na construção do currículo. “Sabemos e reconhecemos que a SED ainda tem muito a fazer, mas acima de tudo, nos colocamos como parceiros do núcleo de educação escolar indígena, juntos com a Alesc para podermos dialogar e selar cada vez mais compromissos com a qualidade da educação escolar indígena”, afirmou Floriano.









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