Demolição do Mural do Hassis levanta debate sobre preservação de patrimônio cultural

Painel será restaurado após pressão, mas falta de cuidado com artes públicas em Florianópolis preocupa ativistas

LULLY SALVADOR

Um mural de quase 80m² na antiga Clínica de Olhos São Sebastião, no centro de Florianópolis, foi demolido em janeiro deste ano. A obra, feita em 1972 por Hiedy de Assis Corrêa, o Hassis, permaneceu por mais de cinco décadas no local. A construtora Placon, atual responsável pelo terreno, se comprometeu a restaurar após comoção pública, carta de repúdio e mobilização da Fundação Hassis, que cuida do acervo do artista.

A profissional indicada para restauração pela Fundação Hassis foi Márcia Regina
Escorteganha, membro da Associação Catarinense de Conservadores e Restauradores de Bens Culturais (ACCR). A previsão de entrega é para 2028.

Luciana Paulo Corrêa, filha de Hassis e uma das administradoras da Fundação, conta que descobriu a demolição por conta de uma denúncia no Instagram. “Fizemos uma carta de repúdio, assinada pela Associação Catarinense de Artistas Plásticos (Acap), que gerou comoção pública, e fomos atrás da construtora, que foi super receptiva”.

A Fundação Hassis, Placon Empreendimentos e a Prefeitura de Florianópolis se reuniram para discutir os próximos passos. Segundo Luciana, a construtora, que não é de Florianópolis, expôs que não sabia da importância do mural e teve a demolição liberada pela prefeitura.

Após acordo, as três entidades assinaram um contrato garantindo a revitalização do mural. Porém, a Fundação Hassis e ativistas se preocupam com a falta de cuidado, preservação e mapeamento das artes públicas na cidade. Na reunião, Luciana sugeriu à Prefeitura que, antes de liberar demolições, verifique se há obras de arte no terreno.

Para João Paulo Schwerz, professor de patrimônio no curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), o patrimônio forma a identidade coletiva. “É uma questão de permanência, de continuidade no tempo. As pessoas acabam experienciando e se referenciando nesses valores como ponto de leitura da cidade”.

Mesmo cientes da importância de preservação, os órgãos responsáveis por fiscalizar ainda enfrentam dificuldades. “Os processos simplesmente não andam. E isso tem um custo, porque enquanto eles não andam, esses imóveis continuam se degradando”, explica João Paulo em relação ao fechamento do Instituto de Planejamento Urbano de Florianópolis (Ipuf) e à falta de chamada de pessoas para o Conselho Consultivo de Patrimônio.

A Prefeitura de Florianópolis negou o fechamento do Ipuf e disse que “as atividades técnicas foram transferidas para a Secretaria de Planejamento, Habitação e Desenvolvimento Urbano (SMPHDU) para integrar a gestão de atividades”. Segundo a gestão municipal, em 18 de março foi assinado um Termo de Compromisso de Restauro com a construtora Pacon, tendo a Fundação Hassis como testemunha. Pelo acordo, a construtora só pode ocupar o imóvel depois de restaurar o mural integralmente.

Hiedy de Assis Corrêa, conhecido como Hassis, foi um dos artistas plásticos mais importantes de Florianópolis. Nasceu em Curitiba, em 1926, e se mudou para Florianópolis ainda criança. Contribuiu para a arte da cidade com murais como o da Praça XV e do Aeroporto Hercílio Luz. Morreu em 2001, mas seu acervo segue vivo na Fundação Hassis, no bairro Itaguaçu, com pinturas, fotografias, esculturas e filmes.

Publicar comentário